domingo, 7 de novembro de 2010

A Arte de Reconhecer


Nos últimos meses me dediquei a pensar sobre a vida. Particularmente a minha vida. E descobri que muitas vezes deixamos de ser nós mesmos e isso é uma responsabilidade totalmente nossa. Temos a incrível capacidade de nos distanciarmos de nós mesmos quando é necessário.
Acho muito engraçada essa necessidade que temos de ter um objetivo na vida. Não vivemos sem planos. Descobri recentemente que há culturas onde o porvir é somente o porvir. Tento viver sem pensar muito sobre o futuro, mas na nossa cultura newtoniano-cartesiana isso é muito difícil.
Ficamos sem chão quando não olhamos pro futuro e traçamos metas. É difícil viver sem ter planos, e mesmo aqueles seres que parecem constantemente despreocupados, em algum momento se atormentam com a idéia do que será feito amanhã.
Quando resolvi me dedicar mais a mim e a minha redescoberta, peguei-me sonhando sonhos antigos e tracei metas. Acredito que não precise dizer que boa parte dos meus planos não passaram de fogo de palha. Não consegui cumprir metade do que planejara. E por mais absurdo que possa parecer, consegui não me culpar.
Como disse recentemente para um amigo, a culpa nos puxa pra baixo e não nos permite evoluir. Quando nos sentimos culpados por algo, tendemos a nos ver também como vitimas. Vitimas são aquelas pessoas incapazes de mudar a situação em que se encontram. Uma das definições do dicionário para “vítima” é: 4. Pessoa que sofre o resultado funesco de seus próprios sentimentos. (Michaelis 2008)
Outro significado para a mesma palavra é sacrificar-se. O sacrifício que nos impomos quando nos portamos como vítimas é lento e doloroso. Embora nos entreguemos ao sacrifício, muitas vezes, com boa vontade o resultado dessa entrega é esperado, é ruim. Nos colocamos a chorar ou simplesmente engolimos o choro.
De qualquer maneira, nosso corpo sofre sempre como se nos impuséssemos a castigos corporais. Ou descontamos nossa angústia comendo demais ou não comemos. Não dormimos direito ou dormimos muito. Nossa vida dá um giro inesperado e violento. Sentimos o chão faltar, o ar faltar e tudo mais parece incerto e confuso.
Quando nos colocamos como vítimas não enxergamos além do nosso próprio nariz. Projetar, planejar, ou simplesmente criar alternativas para a dor lancinante cesse, nos faz sentir melhor. Todavia a diferença entre o remédio e o veneno está na dose. Quando não dosamos bem nossos planos e metas podemos incorrer no risco de serem substitutos tão dolorosos quanto a vitimização que nos predispomos.
Quando traçamos planos complexo demais ou muito fora de nossa realidade, nós não os concluímos. Geralmente sequer o iniciamos, o que nos faz sentir culpa, levando-nos a dor e a sensação de incapacidade crônica. Entramos num ciclo vicioso de excitação e culpa. Nos excitamos com a possibilidade de mudança, nos deixamos arrebatar pela idéia da novidade, do que somos capazes. Quando não conseguimos iniciar ou concluir nossos projetos, nos vemos da pior maneira possível.
Adoro uma passagem do “Pequeno Príncipe” onde ele conhece um Rei de um planeta deserto, e declara a este rei sua paixão pelo pôr-do-sol. O rei diz que se era capaz de ordenar ao sol que este se poria quantas vezes fosse-lhe solicitado. O pequeno príncipe pede ao rei que ordene ao sol se pôr, e o rei lhe responde que não pode ordenar aquilo que seus súditos não são capazes de cumprir.
Entender nossos limites é o primeiro passo rumo ao auto conhecimento, e o auto conhecimento é o primeiro passo para a felicidade. Certa vez me disseram que só somos capazes de amar quando nos amamos primeiro. Acredito que só estamos aptos para a felicidade se nos atentarmos para nós mesmos, se percebermos cada momento como um momento de felicidade. E aprendermos a guardar as lembranças boas para quando passarmos por momentos difíceis.
Meu pequeno príncipe pegou catapora. Nos primeiros dias ele sentiu um enorme desconforto e ficou muito amuado. Chorava a toa, não queria comer e não conseguia dormir. No entanto quando cheguei na casa da minha mãe para buscá-lo ele abriu um largo sorriso e me disse que me amava. As crianças são assim, elas são capazes de sorrir mesmo na dor. Elas são capazes de viver cada momento no seu momento. Acho que esse é o segredo para ser feliz.
Bom, todo esse papo começou porque resolvi contar pra uma jovem sonhadora de vinte e dois anos que me separei, que me pus a escrever num blog, e que futuramente pretendo publicar um livro. Fui afrontada com uma pergunta que me fez pensar. Esta jovem sonhadora, com a inocência de uma criança, perguntou-me qual o objetivo de escrever um livro.
Lembrei-me de uma pequena história de Cecília Meireles, onde o diabo encontra uma criança que faz com seu dedo um buraco no chão, e quando a interroga sobre seu objetivo, a criança simplesmente lhe responde que não há objetivo, que somente está fazendo um buraco no chão com o dedo.
Acredito que seja esse o meu objetivo: apenas escrever um livro e publicá-lo. Às vezes não precisamos de um objetivo pra começarmos algo. Precisamos começar, e depois se houverem frutos, que sejam colhidos no momento próprio e oportuno. Se não houver frutos, pelos menos houve a tentativa de formá-los.
Não é incomum a não ação, quando não temos certeza dos resultados advindos da ação. No entanto, se formos racionalizar sempre, não teremos tempo de agir. Há momentos em que devemos nos despir da razão e simplesmente ouvir a voz do coração. Entregar-se ao inesperado pode ser um bom exercício.
“Hoje o meu coração mudou
Já não sei por que vim, quem sou
Mas o que sou capaz
E o resto tanto faz.
Foi só eu descansar
Junto ao pé de uma árvore
Que me acolheu
E depois me ocorreu.
Vi que a vida que vivia em mim
Agora vive aqui nesse lugar
Em volta das sombras
Essa ilha é a reunião das infinitas direções
Que o vento traz com as ondas.
E é quando me vejo a garimpar
As pedras, a montanha, o seu olhar
Rest la maloya, rest la maloya
Rest la maloya, rest la maloya
Rest là meme
Essa menina, essa menina
Essa menina, essa menina vem me dizer.
Apesar de saber
Que nem tudo que eu quis
Eu pude conhecer
Nem deu pra mais prazer
Se cheguei até aqui
Bem no topo do vulcão
Não posso mais descer
Mas tem como escorrer.
Porque a natureza do amor
Está contida na beleza
E na surpresa das manhãs
Dias que parecem tão iguais
Mas de repente vem
Sinais de uma nova magia
Depois desse encontro singular
O mato, o rum, o vinho, o mel e o mar
Essa menina, essa menina
Essa menina, essa menina vem me dizer.
Rest la maloya, Rest la maloya,

Rest la maloya, Rest la maloya,
Rest là-même

Essa mania, essa mania, essa mania

Essa mania de viver

Essa mania, essa mania, essa mania

Essa mania de viver

Rest la maloya, Rest la maloya,

Rest la maloya, Rest la maloya,
Rest là-même

Rest la maloya, Rest la maloya,

Rest la maloya, Rest la maloya,
Rest là-même.”

(Essa mania – Mart’Nália)

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Conversas Sobre o Amor

Um amigo me disse esta semana que não acredita nesse amor idealizado que as pessoas pregam. Para ele somos capazes de amar muitas vezes ao longo da vida. Completei dizendo que, não apenas somos capazes de amar inúmeras vezes, como também de inúmeras formas, mais a coisa mais difícil do mundo é amar inúmeras vezes e de diferentes maneiras uma única pessoa.

Assim como ele, não sou capaz de acreditar num amor idealizado. No que chamo de amor romântico. Ele nos encarcera, nos deixa sempre insatisfeito. Quando vemos uma linda história de amor, pensamos no porque de não termos uma história igual. Olhamos para o objeto de nosso desejo – o amor, e o vemos transparecer no primeiro ser que nos apresenta uma visão otimizada de amor.

As músicas cantam o amor puro, o amor intenso, o amor irreal. A saudade de um amor perdido, o sofrimento de um coração partido. E nos deixamos levar por essa onda de nostalgia e melancolia e pensamos como desejamos sentir tal emoção. Todavia deixamos de ver que, assim como a música e os filmes têm duração certa, assim também são os momentos de amor.

Vivemos várias histórias de um lindo amor durante a vida, mas nada é eterno, e se o fosse jamais perceberíamos esses momentos. Li certa vez que se nós vivemos na água, esta seria a última coisa que descobriríamos. Por muito tempo se acreditou que o oxigênio puro era bom, no entanto ao longo da história da medicina descobriu-se que, na verdade a pureza do oxigênio danifica as células cerebrais.

Daniel Schreder acreditava que era capaz de resolver todos os problemas ortopédicos com seus equipamentos. Mas no fim descobriu-se que a privação de movimentos, mesmo que esses sejam posturas incorretas, são necessários para o bom desenvolvimento dos ossos.

Esses são simplórios exemplos, trazidos de uma forma leiga e pouco detalhada, mas como pessoas ligadas a razão erram, também nó podemos errar. E esses exemplos são metáforas que servem pra nos mostrar que vivenciamos momentos de puro amor ao longo de nossas vidas, eles só não têm como ser eternos, mas existem. A perfeição apesar de ser uma meta de todos, não existe. Nada é perfeito. Nada é eterno. Nunca é nunca. O equilíbrio não existe. O caos não impera sozinho. Somos seres dicotômicos.

O que esquecemos muitas vezes é que o amor depende de duas pessoas, e que uma delas pode não estar querendo o mesmo que a outra. Quando digo que nada é perfeito e que equilíbrio não existe, estou longe de dizer que devemos beijar o sapo durante toda a vida e esquecer o fato de que ele nunca será um príncipe. Apenas que não devemos deixar de viver momentos bons e gostosos por conta de uma busca impossível.

Talvez pense que eu sou racional demais e talvez estejam certos. Mas entregar-se a tudo com força e sem medo é algo difícil de fazer quando não usamos a razão. Em nossas vidas devemos sempre pesar os benefícios e malefícios de nossos atos. Caso contrário viveremos sob o signo do medo, nos aprisionando em algemas fechadas por nós mesmos, engolindo suas chaves e nos impedindo de valer todas as cores da vida.

Amar quem nos ama é muito difícil. Algumas pessoas conseguem encontrar sua “alma gêmea” enquanto outras parecem ser destinadas à eterna insatisfação no amor. Adorei o filme “Vick, Cristina e Barcelona”, mas acredito que existam muitos outros tipos de pessoas além da eterna sonhadora e da eterna insatisfeita, embora esse sejam os papeis mais comum de acharmos.

Os cientistas, os jornalista e os aproveitadores sempre publicam algo sobre como podemos ser felizes, amados, ricos. Sempre com suas fórmulas mágicas, suas receitas de bolo. Mas acredito que os seres humanos são diversos demais, complexos demais e que nunca seremos capazes de encontrar um receita prêt-à-porter para a felicidade. Soluções mágicas não existem. Mas sempre temos bons momentos para recordar, boas histórias pra contar e pessoas ao redor pra amar.

Vamos olhar para o sol, seu nascer e seu poente, admirar as estrelas, olhar pras crianças na rua. Já perceberam como as crianças são capazes de viver o momento como se nada mais existisse. Talvez devamos olhar mais as crianças e aprender com elas o segredo da felicidade. Vi um documentário na Record onde uma menina muito pobre ficava feliz apenas de receber um biscoito recheado, coisa que não via com freqüência. Ela não estava preocupada se teria a oportunidade de comer novamente em outro momento aquele biscoito, ela só estava feliz de comê-lo naquele momento e compartilhá-lo com seus irmãos.

A alegria não é eterna, mas se nos permitirmos ela pode ser constante.

TEMPOS FUGIT

O sol, a praia a companhia perfeita

O mar batendo na rocha eterna

As cores, os sons, os amores

Poesia, poema, tema

Eu e você, nós dois

Perdido no espaço

Perdidos no laço

Perdidos no tempo

Perdidos de nós mesmos.

A rua, o céu como testemunha

De um lindo dia de sol

De um momento perfeito

Sublime tentativa de um eleito

Conversas sinceras

Conversas verdadeiras

Um sussurro, um silêncio oculto

O mudo encanto da Terra.

Os olhos perfeitos

Olhares suspeitos

A boca saudosa

O corpo refeito

A natureza vaidosa

Olhava rancorosa

Por tanta admiração

Olhos nos olhos

Boca na boca

Sonho perfeito

De um dia fugido

Um dia partido

Entre a alegria

E a culpa.

A culpa nos puxa

Nos impede de ser

Plenamente felizes

Momento único

Momento sublime

Momento de felicidade

Momento eterno

Momento etéreo

Nosso momento.

(Edilene Almeida – novembro 2010)

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Segundo Turno Eleições 2010

Hoje uma mulher entrou pra história do nosso país ao se tornar à primeira mulher eleita presidente. Assim como muitos países, nós agora temos uma mulher como representante da nação. O cerne da discussão em todos os lugares desde a escolha dessa mulher para a candidatura girou em torno da capacidade técnica para o cargo, uma vez que, embora estivesse à frente de importantes pastas do governo, ela nunca exercera um cargo de tamanha importância.

Se pararmos pra olhar a história de muitos de nossos presidentes, veremos que a experiência nunca foi um fator de grande importância num primeiro turno. Jango, embora fosse um ótimo técnico, possuía bem pouca capacidade de diplomacia. Nosso atual presidente também não tinha exercido nenhum cargo eletivo até 2002. Aprendeu a duras penas que para ser um bom presidente ele teria que ceder para algumas classes e, assim aprendeu que para ganhar era necessário perder algumas vezes.

Tomar decisões é algo muito difícil, ainda mais quando se tem nas mãos a vida de milhares de pessoas. Quando o destino de uma nação depende de você. Todavia ao contrário do que a maioria das pessoas pensam, em nossa nação o presidente não decide sozinho. Temos um Congresso e um Senado que auxiliam na tomada das decisões. E também o povo, que manifesta sua vontade não apenas na escolha de seus representantes, mas também, através de referendos e plebiscitos e iniciativa popular.

Assim, o destino da nação não fica entregue nas mãos de apenas uma pessoa, mas de todos. Acredito que um dos maiores problemas de nosso país seja a educação. Sem ela as pessoas não são capazes de decidir o que é melhor nem para si, tampouco para a nação. Longe da noção de política que aprendemos no dia a dia, a política é feita de decisões que visam o interesse coletivo. Segundo o dicionário Michaelis (2008) Política é: 1. A arte ou ciência de governar. 2. Aplicação dessa arte nos negócios internos (política interna) ou nos negócios externos (política externa). 3. Conjunto dos princípios ou opiniões políticas. 4. Maneira de agir ou tratar com habilidade.

A nossa próxima presidente tem muitos desafios, dentre eles o de substituir um presidente que foi, senão sempre eloqüente, foi um dos presidentes mais populares dentro e fora do nosso país. E assim como diz o dicionário, deverá agir ou tratar com habilidades as questões mais delicadas referentes à política externa e interna. Ela deverá dar continuidade aos projetos de infraestrutura no país, aos programas de melhoria da saúde pública, e também ao desenvolvimento tecnológico e educacional. Afinal sem educação todo o resto é balela.

A educação e a saúde precisam ser olhadas com um carinho todo especial. Sem saúde não temos nada. Nem todo o dinheiro do mundo pode comprar a saúde. Sem educação não temos bons profissionais e nem cidadãos, temos apenas burros de carga. As obras de infraestrutura, em especial referentes ao saneamento básico, são primordiais para que haja uma melhoria na saúde pública e na educação, uma vez que sem saúde ninguém é capaz de aprender.

Vejo esses três, como fatores preponderantes na organização de planos estratégicos de governo, mas à longo prazo deverão se analisados outros fatores tão importantes quanto. Não se pode fazer política de curto prazo, precisamos de curto, médio e longo prazo. Soluções nunca são definitivas, mas precisam ser pensadas em todo o tempo, antevendo o que virá, para que não sejamos apenas bombeiros apagando incêndios.

Nosso país precisa mais do que nunca de um governante que não olhe apenas os números, mas que olhe a necessidade de cada cidadão, como sendo a necessidade de todo o país. Porque quando temos uma célula doente, todo o corpo sente os efeitos do desequilíbrio.

domingo, 31 de outubro de 2010

Poesia do Arrependimento

O vento não sopra hoje

O vento esbraveja sua fúria

O vento levanta meu vestido

O vento me cobre toda.

Sinto minha perna bamba

Sinto uma aflição no peito

Sinto uma coisa estranha

Sinto não sentir muito.

Vejo o belo sol se escondendo

Vejo muitas nuvens no céu

Vejo a chuva chegando

Vejo caindo do céu.

Antecipo minha dor

Antecipo meu sofrimento

Antecipo a luta interna

Antecipo meu tormento.

Como pode alguém viver?

Como pode alguém amar?

Como pode alguém desejar?

Como pode assim se entregar?

Chove

Chove

Chove

Chove.

A água banha tudo

A água limpa o mundo

A água aprisiona o calor

A água molha meu corpo.

Queria o sono dos justos

Queria a serenidade do outono

Queria a lucidez de um velho sábio

Queria a simplicidade de uma pequena flor.

Espero não ter tempo

Espero não ser chata

Espero não querer mais nada

Espero não esperar mais.

Desejo ser mais e melhor

Desejo ser mais paciente

Desejo falar menos

Desejo ouvir mais.

Princípio, meio, fim

Atos, re-atos, recatos

Mania, companhia, revelia

Espera, desejo, gracejo.

Não quero mais viver

Não quero mais sofrer

Não quero mais correr

Não quero mais querer.

O fim nem sempre é o fim.

O fim pode ser um começo

O fim pode ser o recomeço

O fim é só um fim.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Minha Oração

Às vezes, acreditamos que nada mais pode acontecer. Nos entregamos te tal maneira ao impossível que não vemos que o precipício é fundo e escuro. Desejamos acreditar em algo com uma força quase sobre humana. E nos deparamos com o pior de nós mesmos. Vamos de encontro aos nossos piores defeitos.

Todas as nossas atitudes geram conseqüências, que embora não sejam sempre ruins, podem significar uma mudança inesperada no transcorrer dos nossos caminhos. Fazendo com que nos prostremos diante do imprevisto como uma criança pega fazendo travessura. Somos confrontados com nossos piores medos e angústias, e nos percebemos fracos e solitários.

Eu não sei se a vida poderia ser mais fácil. E é incrível como ela parece fácil para alguns. Eu adoraria ser como aquelas pessoas que diante de uma tragédia sempre tem a complacência de olhar o que é necessário e simplesmente se entregar a fazer. São pessoas inabaláveis. Pessoas feitas de um escudo forte e concreto.

Eu invejo as pessoas que diante de uma decisão difícil, simplesmente olham as opções e, quase sem pensar, respondem o que tem que ser respondido, de forma tão simples e natural que parecem ter sido criadas para fazer escolhas.

Por um breve momento da minha vida eu acreditei que era capaz de responder as coisas mais simples sobre a vida. Acreditei ser maior do que realmente sou. Acreditei ser capaz de ajudar quem me cercava, dando-lhes conforto e esperança.

Mas hoje eu me peguei sendo frágil e insegura. Sendo tola e imatura. E chorei libertando a criança que existe em mim e me forçando a entender minha humanidade.

Eu me enganei. Deixei-me iludir por mim mesma. Pela áurea de sabedoria que jurava me cercar. E meu tombo foi grande. Perdi coisas antigas que julgava serem especiais e verdadeiras. Perdi coisas novas que julgava serem reais.

Eu invejo as pessoas doces, que são capazes de amansar o mais duro coração. Aquelas pessoas doces e meigas que só de olhar sentimos uma admiração quase divina. Adoraria ser como essas pessoas. Mas eu não sou.

Tenho que viver com a dor de sempre me entregar de forma completa e irrestrita a tudo que vier. De sentir profundamente todas as dores do mundo. De carregar nos ombros o estigma que tenho que carregar. De ser uma pessoa inconstante e insatisfeita. Sempre em busca de algo mais. De uma inquietude que beira a loucura.

Sou como a água que não pode caber entre os dedos da mão. Sou como um rio caudaloso que corre enlouquecidamente em busca de uma foz. E tenho que entender que se Deus me fez assim, ele tem um propósito muito maior com isso.

Mas como entender o que não desejamos?

Como viver sabendo que o mundo nunca vai te satisfazer?

Como viver sabendo que a inquietude interior que sustentamos nos levará ao sofrimento?

Se a vida é sofrimento, então como posso desejar tanto o não sofrer?

Acredito que haja ainda mais perguntas sem respostas que respostas às perguntas do mundo, mas vou buscá-las. Vou procurar saber mais e tentar viver da melhor forma possível. Vou tentar renascer como a Fênix tantas vezes quanto forem necessárias. E cada vez que renascer, eu ressurgirei ainda mais forte do que antes, e mais capaz.

Meu Deus me ajuda a ser mais e melhor a cada dia. Ajuda-me a viver conforme o exemplo de teu Filho. Com humildade e simplicidade. Ajuda-me Deus a ser uma pessoa mais atenciosa ao meu próximo e mais abdicada. Ajuda-me a viver de maneira simples. Porque assim foi teu Filho aqui. Ele não teve palácios, ou mansões, ou mesmo uma casa. Ele viveu desapegado de tudo que era material, não se esquecendo jamais da necessidade dos que o cercavam. Teve humildade para entender que as pessoas tinham fome, dando-as de comer. Entendeu que as pessoas necessitavam de perdão, e deu-lhes o perdão. Necessitavam de cura, e os curou. A cada necessidade, teu Filho atendia com a humildade e o carinho que só podiam prover de Ti.

Dá-me, Senhor, um coração igual ao Teu. Coração disposto a obedecer ao seu querer. Faz de mim um cálice, para a tua adoração. E guia-me pelos Teus caminhos, para o teu louvor. Pai a Ti entrego a minha vida, como em tantas outras vezes. Entrego-as para que a cures e seja engrandecido desta maneira. Amém.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Encontro com Morpheus

Já passavam das duas da madrugada quando decidi que enfrentaria Morpheus. Tomaria satisfações com ele por sua negligência comigo nos últimos dias. Deixei o arquivo baixando e fui tomar banho. A água quente me relaxou, mas num dado momento passou a ser o contrário, a água me envolvia de tal maneira que me excitava. O calor que envolvia meu corpo como um tecido macio me levava ao delírio. Senti que Eros estava ali. Olhei atentamente pra ele e perguntei se já não estava satisfeito com a atenção que venho lhe dedicando. Ele riu, disse-me sempre querer mais.

Voltei pra sala e o download não havia terminado. Senti um leve sopro nos olhos. Olhei e não vi ninguém. Algo era sussurrado no meu ouvido, mas era incompreensível. Finalmente havia terminado e o arquivo já estava concluído. Eram três horas. Olhei meus meninos dormindo e cobri um que cismara de dormir só de cueca. A noite estava levemente fria.

Ao deitar-me senti um perfume diferente e inexplicável. Não sabia dizer que perfume era aquele. Mas era bom. Estava preparada pra brigar com Morpheus. Não era justo sua negligencia para comigo. Não tardou pra ele aparecer. E quando o vi, toda a raiva foi dissipada. Sua beleza era estonteante. Não me lembrava dele assim. Quiçá, porque quase sempre confundia sua imagem com a imagem do personagem de Matrix.

Quase sorri, mas lembrei de seu desleixo comigo. Ele me olhou bem dentro dos olhos. Foi se aproximando e disse com uma voz grave, terna e firme:

- Não fui eu quem te abandonei. Foi você que não me deu atenção. Tenho vindo todas as noites ao seu encontro, mas você está tão envolvida com os outros deuses, que sequer me nota.

- Isso não é verdade. Retruquei.

- Não se engane. Quando foi a última vez que se deitou e simplesmente se entregou em meus braços? Não deitava com Eros e levantava com ele? Por acaso não estava demasiadamente preocupada com Sofia, Philos e outros deuses e semideuses?

- Você está querendo me ver mais irritada. Porque não me toma em seus braços e me leva? Perguntei.

Foi quando ele se aproximou, tocou meu rosto com sua mão delicadamente, aproximando seu pescoço do meu nariz.

- Sente esse cheiro? Tive que me perfumar com essências de lavanda e camomila com um leve toque de canela. Sabe para que? Para estar mais atraente que os outros pra você. Além disso, tive que me vestir com meu melhor traje, brigar com quem lhe desejava atenção e pedir favores a um amigo. Esse amigo fez seus ombros pesarem e seu pescoço doer, obrigando-lhe a deitar-se.

Fiquei muda, o que dizer? Aos poucos aquele perfume foi me inebriando e fui perdendo os sentidos. Morpheus me tomou em seus braços fortes. Era incrível como ele estava tentador. Toquei em seu rosto, sentindo sua pele agradável. Nem mesmo a mais pura seda ou o veludo possuía uma textura mais delicada e prazerosa.

- Parece que nunca te vi antes. Onde você esteve esse tempo todo? Por que não me recordo de você ser tão atraente assim? Perguntei um pouco aflita.

- Você não se lembra de mim? Perguntou com a face terna e doce como de um anjo. Nunca te deixei. Mas há horas em que preciso me afastar de você e permitir que outros deuses te adorem e saboreiem da sua companhia. Não sou egoísta. Nem tenho ciúmes. Inclusive por diversas noites permiti que junto comigo outros compartilhassem da sua cia.

- Então por que não me lembro de você?

- Porque você acabou de descobrir sua liberdade. Você conheceu novos sabores e novas sensações e desejou que isso fosse eterno. Sua ânsia por abraçar o mundo com as pernas não permitia que de ti me aproximasse.

Nesse momento corei. Ele me pegou com seus braços fortes. Levou-me de encontro ao seu peito. Pude sentir sua respiração profunda e pausada, e seu coração batia de maneira regular. Pensei que os deuses não possuíssem coração.

- Isso é mais um dos meus artifícios para te seduzir. Essa ilusão lhe propicia conforto e torna mais fácil minha chegada até você. Disse-me ele com sua voz de veludo.

- Não sabia que era capaz de ler pensamentos. Perguntei.

- Não sou. Mas tenho que adivinhar seus desejos e estou a tanto tempo com você que conheço cada expressão da sua face. Cada palavra expressa por seu corpo.

Senti novamente meu rosto corar. Será que já estava sonhando?

- Não. Ainda precisa relaxar mais. Como você gosta de dizer, tem que se entregar por completo.

Como ele podia me conhecer tão bem assim? Embora soubesse que devia sentir um pouco de medo, afinal eu era transparente como a água para alguém. Eu não sentia medo. Cada vez que ele me apertava contra seu peito, eu sentia meu corpo inteiro estremecer e relaxar. Olhei atentamente para o seu rosto. Jamais vira no mundo homem mais belo.

Suas feições eram firmes e delineadas. Havia uma perfeição em seus traços que eram humanamente impossíveis. Sua boca era carnuda e delicada, e não encontro palavras para descrevê-la. Seus olhos eram firmes e penetrantes como uma lança afiada, e ao mesmo tempo meigos e receptivos como os olhos de um bebê.

Eu estava totalmente entregue aquele deus cuja beleza me parecia maior que a de Apolo. Cuja sensualidade ultrapassava Eros. Cujo falar era mais belo do que o canto da mais perfeita Ninfa. Eu era dele. Totalmente dele. Já não passava nenhum pensamento pela minha cabeça. Pela primeira vez em muito tempo, eu era só sensação. E desta vez não era por conta da loucura de Eros, mas pelos encantos de Morpheus.

Num determinado momento ainda tentei lutar. Mas meu amigo, amante, e agora amado me levou novamente para seu mundo, me dizendo que entendia minha relutância. Afinal, não fazia muito tempo, ele estava tão obcecado por mim, que não conseguia deixar de lançar seus encantos. E ele sabia que seu tempo comigo estava reservado a pequenas horas, depois que o sol se punha.

Eu me entreguei de tal maneira, que pela primeira vez em muitos meses, não percebi o raiar do dia. Meu despertador me acordou, coisa que não acontecia.

- Não se vá. Disse-me ele sôfrego. Faz tanto tempo que não ficamos assim tão próximos e entregues...

Interrompi.

- Eu adoraria ficar mais um pouco, mas tenho obrigações em meu mundo. Eu não posso ficar. Não agora, mas eu volto logo. E haverá um dia que minha entrega a você será eterna. Respondi angustiada por não ficar mais um pouquinho.

- Senti tanto sua falta. E nesse dia que você falou, não serei eu quem terá você para sempre. Será outro deus que virá te buscar. E eu nunca mais poderei estar com você. Deixe-me aproveitá-la mais.

- Juro que volto. Respondi com lagrimas nos olhos. Juro que volto.

Levantei da cama, deixando meu amante desaparecer como que por encanto. Tão logo ele chegou, partiu. Senti uma tristeza profunda por não estar mais com ele. Mas trazia no peito a certeza de que voltaria a vê-lo, e seria em breve. Depois de redescobrir alguns prazeres perdidos, ele me mostrara algo que eu não me lembrava que era tão bom. Morpheus me mostrou o prazer de descansar. O prazer de dormir.

É incrível como Cronos cisma em nos roubar. Minha tentativa de resistência com Morpheus não durou mais que algumas frações de segundos, e minha viagem pro seu mundo durou menos de quatro horas. Não me sinto satisfeita. Mas pelo menos agora eu redescobri um prazer esquecido, negligenciado, relegado.

sábado, 23 de outubro de 2010

Solidão

Agora à noite senti algo que desde minha última separação eu não sentia. Pra ser bem sincera, acredito que desde o dia vinte de agosto não sei o que é essa sensação. Sinto-me só e vazia. A solidão me acompanha em todo o caminho. Olho pro lado, pego um livro, leio, acho que ela vai se tocar e ir embora, mas não. Ela está saudosa de mim e me pega em seus braços com toda à vontade. Andando na direção da minha casa, percebo que são poucas as pessoas na rua. Chove uma fina chuva, e poucos carros passam. A noite preta e gelada envolve minha alma e faz com que a solidão fique ainda mais forte.

Chego enfim a minha casa e ela está vazia. Olho tudo como se nada me pertencesse. Eu não me pertenço. Tiro as lentes de contato, ligo pra dizer que cheguei em casa. Ligo a TV, mas não está passando nada. Pauso num filme que já vi um milhão de vezes e me prostro frente ao notebook pra uma catarse básica.

Desde que me separei sofri uma enxurrada de sentimentos. Eram tantos e tão diversos que me sentia perdida. Desta vez, eu sentia-me feliz, mas ela chegou sem aviso e me pegou pela mão. A solidão invadiu meu peito como uma erva daninha. Mas não vou dar atenção. Não podemos nos entregar. Senão ela toma conta e traz amigas que não nos interessam.

“Solidão é lava que cobre tudo

Amargura em minha boca

Sorri seus dentes de chumbo

Solidão palavra cavalga no coração

Resignado e mudo no compasso da desilução

Desilução, desilução

Danço eu, dança você

Na dança da solidão

Amélia ficou viúva

Joana se apaixonou

Maria tentou a morte

Por causa do seu amor

Meu pai sempre me dizia

Meu filho tome cuidado

Quando eu penso no futuro

Não me esqueço do passado

Desilução, desilução

Danço eu, dança você

Na dança da solidão

Quando vem a madrugada

Meu pensamento vagueia

Corro os dedos na viola

Contemplando a lua cheia

Apesar de tudo existe

Uma fonte de água pura

Quem beber daquela água

Não terá mais amargura...”

(Dança da Solidão – Marisa Monte)