domingo, 7 de novembro de 2010
A Arte de Reconhecer
quinta-feira, 4 de novembro de 2010
Conversas Sobre o Amor
Um amigo me disse esta semana que não acredita nesse amor idealizado que as pessoas pregam. Para ele somos capazes de amar muitas vezes ao longo da vida. Completei dizendo que, não apenas somos capazes de amar inúmeras vezes, como também de inúmeras formas, mais a coisa mais difícil do mundo é amar inúmeras vezes e de diferentes maneiras uma única pessoa.
Assim como ele, não sou capaz de acreditar num amor idealizado. No que chamo de amor romântico. Ele nos encarcera, nos deixa sempre insatisfeito. Quando vemos uma linda história de amor, pensamos no porque de não termos uma história igual. Olhamos para o objeto de nosso desejo – o amor, e o vemos transparecer no primeiro ser que nos apresenta uma visão otimizada de amor.
As músicas cantam o amor puro, o amor intenso, o amor irreal. A saudade de um amor perdido, o sofrimento de um coração partido. E nos deixamos levar por essa onda de nostalgia e melancolia e pensamos como desejamos sentir tal emoção. Todavia deixamos de ver que, assim como a música e os filmes têm duração certa, assim também são os momentos de amor.
Vivemos várias histórias de um lindo amor durante a vida, mas nada é eterno, e se o fosse jamais perceberíamos esses momentos. Li certa vez que se nós vivemos na água, esta seria a última coisa que descobriríamos. Por muito tempo se acreditou que o oxigênio puro era bom, no entanto ao longo da história da medicina descobriu-se que, na verdade a pureza do oxigênio danifica as células cerebrais.
Daniel Schreder acreditava que era capaz de resolver todos os problemas ortopédicos com seus equipamentos. Mas no fim descobriu-se que a privação de movimentos, mesmo que esses sejam posturas incorretas, são necessários para o bom desenvolvimento dos ossos.
Esses são simplórios exemplos, trazidos de uma forma leiga e pouco detalhada, mas como pessoas ligadas a razão erram, também nó podemos errar. E esses exemplos são metáforas que servem pra nos mostrar que vivenciamos momentos de puro amor ao longo de nossas vidas, eles só não têm como ser eternos, mas existem. A perfeição apesar de ser uma meta de todos, não existe. Nada é perfeito. Nada é eterno. Nunca é nunca. O equilíbrio não existe. O caos não impera sozinho. Somos seres dicotômicos.
O que esquecemos muitas vezes é que o amor depende de duas pessoas, e que uma delas pode não estar querendo o mesmo que a outra. Quando digo que nada é perfeito e que equilíbrio não existe, estou longe de dizer que devemos beijar o sapo durante toda a vida e esquecer o fato de que ele nunca será um príncipe. Apenas que não devemos deixar de viver momentos bons e gostosos por conta de uma busca impossível.
Talvez pense que eu sou racional demais e talvez estejam certos. Mas entregar-se a tudo com força e sem medo é algo difícil de fazer quando não usamos a razão. Em nossas vidas devemos sempre pesar os benefícios e malefícios de nossos atos. Caso contrário viveremos sob o signo do medo, nos aprisionando em algemas fechadas por nós mesmos, engolindo suas chaves e nos impedindo de valer todas as cores da vida.
Amar quem nos ama é muito difícil. Algumas pessoas conseguem encontrar sua “alma gêmea” enquanto outras parecem ser destinadas à eterna insatisfação no amor. Adorei o filme “Vick, Cristina e Barcelona”, mas acredito que existam muitos outros tipos de pessoas além da eterna sonhadora e da eterna insatisfeita, embora esse sejam os papeis mais comum de acharmos.
Os cientistas, os jornalista e os aproveitadores sempre publicam algo sobre como podemos ser felizes, amados, ricos. Sempre com suas fórmulas mágicas, suas receitas de bolo. Mas acredito que os seres humanos são diversos demais, complexos demais e que nunca seremos capazes de encontrar um receita prêt-à-porter para a felicidade. Soluções mágicas não existem. Mas sempre temos bons momentos para recordar, boas histórias pra contar e pessoas ao redor pra amar.
Vamos olhar para o sol, seu nascer e seu poente, admirar as estrelas, olhar pras crianças na rua. Já perceberam como as crianças são capazes de viver o momento como se nada mais existisse. Talvez devamos olhar mais as crianças e aprender com elas o segredo da felicidade. Vi um documentário na Record onde uma menina muito pobre ficava feliz apenas de receber um biscoito recheado, coisa que não via com freqüência. Ela não estava preocupada se teria a oportunidade de comer novamente em outro momento aquele biscoito, ela só estava feliz de comê-lo naquele momento e compartilhá-lo com seus irmãos.
A alegria não é eterna, mas se nos permitirmos ela pode ser constante.
TEMPOS FUGIT
O sol, a praia a companhia perfeita
O mar batendo na rocha eterna
As cores, os sons, os amores
Poesia, poema, tema
Eu e você, nós dois
Perdido no espaço
Perdidos no laço
Perdidos no tempo
Perdidos de nós mesmos.
A rua, o céu como testemunha
De um lindo dia de sol
De um momento perfeito
Sublime tentativa de um eleito
Conversas sinceras
Conversas verdadeiras
Um sussurro, um silêncio oculto
O mudo encanto da Terra.
Os olhos perfeitos
Olhares suspeitos
A boca saudosa
O corpo refeito
A natureza vaidosa
Olhava rancorosa
Por tanta admiração
Olhos nos olhos
Boca na boca
Sonho perfeito
De um dia fugido
Um dia partido
Entre a alegria
E a culpa.
A culpa nos puxa
Nos impede de ser
Plenamente felizes
Momento único
Momento sublime
Momento de felicidade
Momento eterno
Momento etéreo
Nosso momento.
(Edilene Almeida – novembro 2010)
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
Segundo Turno Eleições 2010
Hoje uma mulher entrou pra história do nosso país ao se tornar à primeira mulher eleita presidente. Assim como muitos países, nós agora temos uma mulher como representante da nação. O cerne da discussão em todos os lugares desde a escolha dessa mulher para a candidatura girou em torno da capacidade técnica para o cargo, uma vez que, embora estivesse à frente de importantes pastas do governo, ela nunca exercera um cargo de tamanha importância.
Se pararmos pra olhar a história de muitos de nossos presidentes, veremos que a experiência nunca foi um fator de grande importância num primeiro turno. Jango, embora fosse um ótimo técnico, possuía bem pouca capacidade de diplomacia. Nosso atual presidente também não tinha exercido nenhum cargo eletivo até 2002. Aprendeu a duras penas que para ser um bom presidente ele teria que ceder para algumas classes e, assim aprendeu que para ganhar era necessário perder algumas vezes.
Tomar decisões é algo muito difícil, ainda mais quando se tem nas mãos a vida de milhares de pessoas. Quando o destino de uma nação depende de você. Todavia ao contrário do que a maioria das pessoas pensam, em nossa nação o presidente não decide sozinho. Temos um Congresso e um Senado que auxiliam na tomada das decisões. E também o povo, que manifesta sua vontade não apenas na escolha de seus representantes, mas também, através de referendos e plebiscitos e iniciativa popular.
Assim, o destino da nação não fica entregue nas mãos de apenas uma pessoa, mas de todos. Acredito que um dos maiores problemas de nosso país seja a educação. Sem ela as pessoas não são capazes de decidir o que é melhor nem para si, tampouco para a nação. Longe da noção de política que aprendemos no dia a dia, a política é feita de decisões que visam o interesse coletivo. Segundo o dicionário Michaelis (2008) Política é: 1. A arte ou ciência de governar. 2. Aplicação dessa arte nos negócios internos (política interna) ou nos negócios externos (política externa). 3. Conjunto dos princípios ou opiniões políticas. 4. Maneira de agir ou tratar com habilidade.
A nossa próxima presidente tem muitos desafios, dentre eles o de substituir um presidente que foi, senão sempre eloqüente, foi um dos presidentes mais populares dentro e fora do nosso país. E assim como diz o dicionário, deverá agir ou tratar com habilidades as questões mais delicadas referentes à política externa e interna. Ela deverá dar continuidade aos projetos de infraestrutura no país, aos programas de melhoria da saúde pública, e também ao desenvolvimento tecnológico e educacional. Afinal sem educação todo o resto é balela.
A educação e a saúde precisam ser olhadas com um carinho todo especial. Sem saúde não temos nada. Nem todo o dinheiro do mundo pode comprar a saúde. Sem educação não temos bons profissionais e nem cidadãos, temos apenas burros de carga. As obras de infraestrutura, em especial referentes ao saneamento básico, são primordiais para que haja uma melhoria na saúde pública e na educação, uma vez que sem saúde ninguém é capaz de aprender.
Vejo esses três, como fatores preponderantes na organização de planos estratégicos de governo, mas à longo prazo deverão se analisados outros fatores tão importantes quanto. Não se pode fazer política de curto prazo, precisamos de curto, médio e longo prazo. Soluções nunca são definitivas, mas precisam ser pensadas em todo o tempo, antevendo o que virá, para que não sejamos apenas bombeiros apagando incêndios.
Nosso país precisa mais do que nunca de um governante que não olhe apenas os números, mas que olhe a necessidade de cada cidadão, como sendo a necessidade de todo o país. Porque quando temos uma célula doente, todo o corpo sente os efeitos do desequilíbrio.
domingo, 31 de outubro de 2010
Poesia do Arrependimento
O vento não sopra hoje
O vento esbraveja sua fúria
O vento levanta meu vestido
O vento me cobre toda.
Sinto minha perna bamba
Sinto uma aflição no peito
Sinto uma coisa estranha
Sinto não sentir muito.
Vejo o belo sol se escondendo
Vejo muitas nuvens no céu
Vejo a chuva chegando
Vejo caindo do céu.
Antecipo minha dor
Antecipo meu sofrimento
Antecipo a luta interna
Antecipo meu tormento.
Como pode alguém viver?
Como pode alguém amar?
Como pode alguém desejar?
Como pode assim se entregar?
Chove
Chove
Chove
Chove.
A água banha tudo
A água limpa o mundo
A água aprisiona o calor
A água molha meu corpo.
Queria o sono dos justos
Queria a serenidade do outono
Queria a lucidez de um velho sábio
Queria a simplicidade de uma pequena flor.
Espero não ter tempo
Espero não ser chata
Espero não querer mais nada
Espero não esperar mais.
Desejo ser mais e melhor
Desejo ser mais paciente
Desejo falar menos
Desejo ouvir mais.
Princípio, meio, fim
Atos, re-atos, recatos
Mania, companhia, revelia
Espera, desejo, gracejo.
Não quero mais viver
Não quero mais sofrer
Não quero mais correr
Não quero mais querer.
O fim nem sempre é o fim.
O fim pode ser um começo
O fim pode ser o recomeço
O fim é só um fim.
sexta-feira, 29 de outubro de 2010
Minha Oração
Às vezes, acreditamos que nada mais pode acontecer. Nos entregamos te tal maneira ao impossível que não vemos que o precipício é fundo e escuro. Desejamos acreditar em algo com uma força quase sobre humana. E nos deparamos com o pior de nós mesmos. Vamos de encontro aos nossos piores defeitos.
Todas as nossas atitudes geram conseqüências, que embora não sejam sempre ruins, podem significar uma mudança inesperada no transcorrer dos nossos caminhos. Fazendo com que nos prostremos diante do imprevisto como uma criança pega fazendo travessura. Somos confrontados com nossos piores medos e angústias, e nos percebemos fracos e solitários.
Eu não sei se a vida poderia ser mais fácil. E é incrível como ela parece fácil para alguns. Eu adoraria ser como aquelas pessoas que diante de uma tragédia sempre tem a complacência de olhar o que é necessário e simplesmente se entregar a fazer. São pessoas inabaláveis. Pessoas feitas de um escudo forte e concreto.
Eu invejo as pessoas que diante de uma decisão difícil, simplesmente olham as opções e, quase sem pensar, respondem o que tem que ser respondido, de forma tão simples e natural que parecem ter sido criadas para fazer escolhas.
Por um breve momento da minha vida eu acreditei que era capaz de responder as coisas mais simples sobre a vida. Acreditei ser maior do que realmente sou. Acreditei ser capaz de ajudar quem me cercava, dando-lhes conforto e esperança.
Mas hoje eu me peguei sendo frágil e insegura. Sendo tola e imatura. E chorei libertando a criança que existe em mim e me forçando a entender minha humanidade.
Eu me enganei. Deixei-me iludir por mim mesma. Pela áurea de sabedoria que jurava me cercar. E meu tombo foi grande. Perdi coisas antigas que julgava serem especiais e verdadeiras. Perdi coisas novas que julgava serem reais.
Eu invejo as pessoas doces, que são capazes de amansar o mais duro coração. Aquelas pessoas doces e meigas que só de olhar sentimos uma admiração quase divina. Adoraria ser como essas pessoas. Mas eu não sou.
Tenho que viver com a dor de sempre me entregar de forma completa e irrestrita a tudo que vier. De sentir profundamente todas as dores do mundo. De carregar nos ombros o estigma que tenho que carregar. De ser uma pessoa inconstante e insatisfeita. Sempre em busca de algo mais. De uma inquietude que beira a loucura.
Sou como a água que não pode caber entre os dedos da mão. Sou como um rio caudaloso que corre enlouquecidamente em busca de uma foz. E tenho que entender que se Deus me fez assim, ele tem um propósito muito maior com isso.
Mas como entender o que não desejamos?
Como viver sabendo que o mundo nunca vai te satisfazer?
Como viver sabendo que a inquietude interior que sustentamos nos levará ao sofrimento?
Se a vida é sofrimento, então como posso desejar tanto o não sofrer?
Acredito que haja ainda mais perguntas sem respostas que respostas às perguntas do mundo, mas vou buscá-las. Vou procurar saber mais e tentar viver da melhor forma possível. Vou tentar renascer como a Fênix tantas vezes quanto forem necessárias. E cada vez que renascer, eu ressurgirei ainda mais forte do que antes, e mais capaz.
Meu Deus me ajuda a ser mais e melhor a cada dia. Ajuda-me a viver conforme o exemplo de teu Filho. Com humildade e simplicidade. Ajuda-me Deus a ser uma pessoa mais atenciosa ao meu próximo e mais abdicada. Ajuda-me a viver de maneira simples. Porque assim foi teu Filho aqui. Ele não teve palácios, ou mansões, ou mesmo uma casa. Ele viveu desapegado de tudo que era material, não se esquecendo jamais da necessidade dos que o cercavam. Teve humildade para entender que as pessoas tinham fome, dando-as de comer. Entendeu que as pessoas necessitavam de perdão, e deu-lhes o perdão. Necessitavam de cura, e os curou. A cada necessidade, teu Filho atendia com a humildade e o carinho que só podiam prover de Ti.
Dá-me, Senhor, um coração igual ao Teu. Coração disposto a obedecer ao seu querer. Faz de mim um cálice, para a tua adoração. E guia-me pelos Teus caminhos, para o teu louvor. Pai a Ti entrego a minha vida, como em tantas outras vezes. Entrego-as para que a cures e seja engrandecido desta maneira. Amém.
segunda-feira, 25 de outubro de 2010
Encontro com Morpheus

Já passavam das duas da madrugada quando decidi que enfrentaria Morpheus. Tomaria satisfações com ele por sua negligência comigo nos últimos dias. Deixei o arquivo baixando e fui tomar banho. A água quente me relaxou, mas num dado momento passou a ser o contrário, a água me envolvia de tal maneira que me excitava. O calor que envolvia meu corpo como um tecido macio me levava ao delírio. Senti que Eros estava ali. Olhei atentamente pra ele e perguntei se já não estava satisfeito com a atenção que venho lhe dedicando. Ele riu, disse-me sempre querer mais.
Voltei pra sala e o download não havia terminado. Senti um leve sopro nos olhos. Olhei e não vi ninguém. Algo era sussurrado no meu ouvido, mas era incompreensível. Finalmente havia terminado e o arquivo já estava concluído. Eram três horas. Olhei meus meninos dormindo e cobri um que cismara de dormir só de cueca. A noite estava levemente fria.
Ao deitar-me senti um perfume diferente e inexplicável. Não sabia dizer que perfume era aquele. Mas era bom. Estava preparada pra brigar com Morpheus. Não era justo sua negligencia para comigo. Não tardou pra ele aparecer. E quando o vi, toda a raiva foi dissipada. Sua beleza era estonteante. Não me lembrava dele assim. Quiçá, porque quase sempre confundia sua imagem com a imagem do personagem de Matrix.
Quase sorri, mas lembrei de seu desleixo comigo. Ele me olhou bem dentro dos olhos. Foi se aproximando e disse com uma voz grave, terna e firme:
- Não fui eu quem te abandonei. Foi você que não me deu atenção. Tenho vindo todas as noites ao seu encontro, mas você está tão envolvida com os outros deuses, que sequer me nota.
- Isso não é verdade. Retruquei.
- Não se engane. Quando foi a última vez que se deitou e simplesmente se entregou em meus braços? Não deitava com Eros e levantava com ele? Por acaso não estava demasiadamente preocupada com Sofia, Philos e outros deuses e semideuses?
- Você está querendo me ver mais irritada. Porque não me toma em seus braços e me leva? Perguntei.
Foi quando ele se aproximou, tocou meu rosto com sua mão delicadamente, aproximando seu pescoço do meu nariz.
- Sente esse cheiro? Tive que me perfumar com essências de lavanda e camomila com um leve toque de canela. Sabe para que? Para estar mais atraente que os outros pra você. Além disso, tive que me vestir com meu melhor traje, brigar com quem lhe desejava atenção e pedir favores a um amigo. Esse amigo fez seus ombros pesarem e seu pescoço doer, obrigando-lhe a deitar-se.
Fiquei muda, o que dizer? Aos poucos aquele perfume foi me inebriando e fui perdendo os sentidos. Morpheus me tomou em seus braços fortes. Era incrível como ele estava tentador. Toquei em seu rosto, sentindo sua pele agradável. Nem mesmo a mais pura seda ou o veludo possuía uma textura mais delicada e prazerosa.
- Parece que nunca te vi antes. Onde você esteve esse tempo todo? Por que não me recordo de você ser tão atraente assim? Perguntei um pouco aflita.
- Você não se lembra de mim? Perguntou com a face terna e doce como de um anjo. Nunca te deixei. Mas há horas em que preciso me afastar de você e permitir que outros deuses te adorem e saboreiem da sua companhia. Não sou egoísta. Nem tenho ciúmes. Inclusive por diversas noites permiti que junto comigo outros compartilhassem da sua cia.
- Então por que não me lembro de você?
- Porque você acabou de descobrir sua liberdade. Você conheceu novos sabores e novas sensações e desejou que isso fosse eterno. Sua ânsia por abraçar o mundo com as pernas não permitia que de ti me aproximasse.
Nesse momento corei. Ele me pegou com seus braços fortes. Levou-me de encontro ao seu peito. Pude sentir sua respiração profunda e pausada, e seu coração batia de maneira regular. Pensei que os deuses não possuíssem coração.
- Isso é mais um dos meus artifícios para te seduzir. Essa ilusão lhe propicia conforto e torna mais fácil minha chegada até você. Disse-me ele com sua voz de veludo.
- Não sabia que era capaz de ler pensamentos. Perguntei.
- Não sou. Mas tenho que adivinhar seus desejos e estou a tanto tempo com você que conheço cada expressão da sua face. Cada palavra expressa por seu corpo.
Senti novamente meu rosto corar. Será que já estava sonhando?
- Não. Ainda precisa relaxar mais. Como você gosta de dizer, tem que se entregar por completo.
Como ele podia me conhecer tão bem assim? Embora soubesse que devia sentir um pouco de medo, afinal eu era transparente como a água para alguém. Eu não sentia medo. Cada vez que ele me apertava contra seu peito, eu sentia meu corpo inteiro estremecer e relaxar. Olhei atentamente para o seu rosto. Jamais vira no mundo homem mais belo.
Suas feições eram firmes e delineadas. Havia uma perfeição em seus traços que eram humanamente impossíveis. Sua boca era carnuda e delicada, e não encontro palavras para descrevê-la. Seus olhos eram firmes e penetrantes como uma lança afiada, e ao mesmo tempo meigos e receptivos como os olhos de um bebê.
Eu estava totalmente entregue aquele deus cuja beleza me parecia maior que a de Apolo. Cuja sensualidade ultrapassava Eros. Cujo falar era mais belo do que o canto da mais perfeita Ninfa. Eu era dele. Totalmente dele. Já não passava nenhum pensamento pela minha cabeça. Pela primeira vez em muito tempo, eu era só sensação. E desta vez não era por conta da loucura de Eros, mas pelos encantos de Morpheus.
Num determinado momento ainda tentei lutar. Mas meu amigo, amante, e agora amado me levou novamente para seu mundo, me dizendo que entendia minha relutância. Afinal, não fazia muito tempo, ele estava tão obcecado por mim, que não conseguia deixar de lançar seus encantos. E ele sabia que seu tempo comigo estava reservado a pequenas horas, depois que o sol se punha.
Eu me entreguei de tal maneira, que pela primeira vez em muitos meses, não percebi o raiar do dia. Meu despertador me acordou, coisa que não acontecia.
- Não se vá. Disse-me ele sôfrego. Faz tanto tempo que não ficamos assim tão próximos e entregues...
Interrompi.
- Eu adoraria ficar mais um pouco, mas tenho obrigações em meu mundo. Eu não posso ficar. Não agora, mas eu volto logo. E haverá um dia que minha entrega a você será eterna. Respondi angustiada por não ficar mais um pouquinho.
- Senti tanto sua falta. E nesse dia que você falou, não serei eu quem terá você para sempre. Será outro deus que virá te buscar. E eu nunca mais poderei estar com você. Deixe-me aproveitá-la mais.
- Juro que volto. Respondi com lagrimas nos olhos. Juro que volto.
Levantei da cama, deixando meu amante desaparecer como que por encanto. Tão logo ele chegou, partiu. Senti uma tristeza profunda por não estar mais com ele. Mas trazia no peito a certeza de que voltaria a vê-lo, e seria em breve. Depois de redescobrir alguns prazeres perdidos, ele me mostrara algo que eu não me lembrava que era tão bom. Morpheus me mostrou o prazer de descansar. O prazer de dormir.
É incrível como Cronos cisma em nos roubar. Minha tentativa de resistência com Morpheus não durou mais que algumas frações de segundos, e minha viagem pro seu mundo durou menos de quatro horas. Não me sinto satisfeita. Mas pelo menos agora eu redescobri um prazer esquecido, negligenciado, relegado.
sábado, 23 de outubro de 2010
Solidão
Chego enfim a minha casa e ela está vazia. Olho tudo como se nada me pertencesse. Eu não me pertenço. Tiro as lentes de contato, ligo pra dizer que cheguei em casa. Ligo a TV, mas não está passando nada. Pauso num filme que já vi um milhão de vezes e me prostro frente ao notebook pra uma catarse básica.
Desde que me separei sofri uma enxurrada de sentimentos. Eram tantos e tão diversos que me sentia perdida. Desta vez, eu sentia-me feliz, mas ela chegou sem aviso e me pegou pela mão. A solidão invadiu meu peito como uma erva daninha. Mas não vou dar atenção. Não podemos nos entregar. Senão ela toma conta e traz amigas que não nos interessam.
“Solidão é lava que cobre tudo
Amargura em minha boca
Sorri seus dentes de chumbo
Solidão palavra cavalga no coração
Resignado e mudo no compasso da desilução
Desilução, desilução
Danço eu, dança você
Na dança da solidão
Amélia ficou viúva
Joana se apaixonou
Maria tentou a morte
Por causa do seu amor
Meu pai sempre me dizia
Meu filho tome cuidado
Quando eu penso no futuro
Não me esqueço do passado
Desilução, desilução
Danço eu, dança você
Na dança da solidão
Quando vem a madrugada
Meu pensamento vagueia
Corro os dedos na viola
Contemplando a lua cheia
Apesar de tudo existe
Uma fonte de água pura
Quem beber daquela água
Não terá mais amargura...”
(Dança da Solidão – Marisa Monte)