quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Mudanças - Via Crucis

Apesar de muitas vezes acreditarmos que pequenas mudanças não afetam o conjunto da nossa vida, muitas vezes elas são mais amplas do que podemos imaginar, e englobam coisas que jamais imaginaríamos. Tudo começou, pra mim, de uma forma muito simples e em poucos meses minha vida havia mudado radicalmente.

Mudanças são, muitas vezes, inerentes a nossa vontade. Apesar de desejar muito mudar de casa, essa mudança ocorreu num momento inesperado. Dois anos e oito meses antes eu a comprara. Minha primeira casa própria. Batalhei durante quatro meses para a realização daquele sonho, e ao entrar jurei que só moraria ali por três anos. Naquele momento da minha vida a compra da minha casa não foi feita por vontade, mas por necessidade. Sempre quis morar próximo ao trabalho e essa casa era distante, mas era próximo da minha família. E eu precisava da minha família perto por ter dois filhos pequenos.

Havia marcado minhas férias e uma viagem pra Buenos Aires. Seria uma viagem pra comemorar dois anos de namoro. Pra mim um recorde. Até aquele momento a minha relação parecia perfeita e isso parecia milagre. Acreditava ter encontrado alguém pra compartilhar a vida.

Estudei cada detalhe da viagem. Lia mapas da cidade quase todo o dia. Lia blogs sobre viagem, artigos sobre os melhores lugares, os melhores passeios. Criei um roteiro. Enfim me dediquei durante quatro meses para aquela viagem. Estudei tanto que quando cheguei lá, parecia que eu conhecia tudo. Mas três semanas antes da viagem, fui surpreendida pela notícia da venda da minha casa. Teria trinta dias para deixá-la. E meu primeiro dia de férias foi procurando um novo lugar pra morar.

Desejara aquela mudança um ano antes. Quando cheguei naquela casa, precisava esquecer o passado. Passei dois anos reclusa de quase tudo em busca de minha auto descoberta. Em busca de curativos pro meu coração. Todo tempo em que morei naquela casa estive envolvida com obras. A busca por um bom pedreiro, gastos com material de obra, com mão de obra. A necessidade constante de modificações fez com que me cansasse demais. Eu não queria mais aquilo. O lugar que era pra me trazer paz acabou dando-me dor de cabeça e problemas financeiros.

Quando disse que pretendia vender minha casa e morar de aluguel, todos disseram que estava louca e eu lhes dizia que precisa me ocupar com outras coisas além de reformas de casa. O tempo mostrara novas necessidades e eu precisava mudar. Precisa realizar a profecia que eu mesma traçara tempos atrás. Era o meu tempo. A minha hora.

Um amigo do trabalho me falou que seria difícil achar um imóvel tão rápido, mas isso não aconteceu. O primeiro apartamento que vi me encheu de alegria. Ele era perfeito, grande, arejado, e numa rua tranqüila. Tudo de que precisava tinha por perto, bancos, lavanderia, restaurante, pensões, mercados, floricultura etc.

Minha via crucis começou ao tentar alugar. Achavam que minha renda não suportaria as despesas do imóvel. Provei que podia pagar e em uma semana já estava com as chaves do imóvel. Como a felicidade dura pouco, meu namorado se machucou e fiquei sozinha pra fazer a mudança. Na primeira parte da longa jornada da mudança, cheguei a ponto de sentar e chorar por não ter quem me ajudasse. Um vizinho muito enxerido me viu chorar e ofereceu ajuda.

Consegui levar as coisas mais importantes. Faltavam apenas alguns dias pra viagem e estava mais tranqüila. As coisas mais leves eu levava de bicicleta pra nova casa. Minha chefe me emprestara duas bolsas grandes que eu prendia nas costas e na cestinha da bicicleta, levando de uma casa a outra o que necessitava.

Confesso que achava muito engraçado, não era perto uma casa da outra. Cerca de quarenta minutos de caminhada ou quinze minutos de bicicleta correndo. Mas, apesar do cansaço eu estava feliz. Cumpriria minha palavra e conseguiria viajar sem problemas. Só que na mudança eu perdi todo o roteiro que havia escrito, não tive outra escolha a não ser improvisar. Sou boa de improviso, mas senti-me frustrada por não ter conseguido ir a todos os lugares que desejava. A viagem foi curta, cansativa, mas foi muito bom perceber o quanto o Brasil é um país incrível e promissor. A Argentina passava por uma enorme crise financeira. Pra nós foi relativamente bom, porque o real valia o dobro do peso, e isso baixou muito o custo da nossa estadia. Comprara a viagem enquanto o dólar estava baixo e durante a viagem aproveitei o bom câmbio.

Era triste ver pessoas passando necessidade nas ruas, e o mais estranho era ver gente branca, loira e de olhos azuis sentadas nas ruas pedindo esmolas. No Brasil nós geralmente não vemos esse perfil na mendicância. A Argentina não teve o contingente de africanos que o Brasil, então era raro ver uma pessoa negra por lá. Foi lá também que aprendi a valorizar o metrô do Rio de Janeiro. O metrô de Buenos Aires é antiqüíssimo, e ainda preserva a forração dos bancos em veludo vinho, fora às outras coisas. Senti-me numa viagem ao passado, tão passado que deu medo do vagão descarrilar. Rs

À volta ao Brasil não me trouxe descanso, faltava retirar o restante das coisas e entregar as chaves. Fora que houve atraso na montagem dos móveis da cozinha e fiquei cinqüenta dias sem poder cozinhar. Acho que esse fato fez com que eu e essa parte da casa não nos entendêssemos até hoje.

Minhas férias acabaram sem que eu tivesse descanso, e na volta minha chefe estava de férias. A volta ao trabalho chegou com uma insuportável dor de cabeça. Achei que fosse o estresse da volta. Até que a dor foi aumentando até eu não suportar mais olhar a luz do dia sem sentir como se uma faca atravessasse meu cérebro.

Para meu desespero os exames mostraram que eu estava com uma sinusite quase cronificada. Foram antibióticos, descongestionantes e antialérgicos fortes. Eu não melhorava e ia estava cada vez mais dispersa e sonolenta por conta dos antialérgicos. Fora que as chuvas do inicio de abril fizeram meu trabalho dobrar. Chorava ao levantar da cama. Sentia como se trabalhasse carregando grandes pedras nas costas.

Foi quando numa sexta feira antes do dia das mães, ao chegar no trabalho deparei-me com um memorando solicitando minha presença no GRH. Eu sabia que não seria demitida, afinal sou concursada e estatutária, mas não tinha idéia de que dali pra frente minha vida teria uma virada incrível.

Havia sido cedida pra outro órgão por seis meses, e trabalharia perto de casa. Gosto de pensar que nos momentos mais difíceis Deus sempre nos dá uma ajuda. Chegara realmente ao meu limite, e ele na sua divina sabedoria providenciara um descanso pra mim. Adoraria que isso fosse verdade, mas essa mudança gerou alguns transtornos. Pra começar, teria que mudar meu filho mais novo de escola, uma vez que ele estudava próximo ao meu trabalho. Segundo teria que me adaptar ao horário do novo trabalho que era diferente. Teria que refazer toda a minha rotina, e isso só duraria alguns meses. Minha alimentação estava condicionada a minha rotina, então virou uma bagunça e engordei seis quilos.

Confesso que os quilos a mais não me perturbam tanto. Nesse ínterim comecei um tratamento com vacinas para alergia e aos poucos minha disposição foi voltando. Só que a mudança na minha rotina trouxe a tona problemas que antes eu não via. Fazia-se necessária algumas adaptações que não dependiam de mim.

Num dado momento, percebi que a perfeição não existia. Vivia no mundo de Alice. Um mundinho aparentemente perfeito, mas absolutamente irreal. Sem perceber fui deixando de ser eu, de me preocupar com as coisas que eram importantes pra mim, e passei a ser aquilo que esperavam que eu fosse. Fui me entregando aos problemas alheios e a ilusão alheia e me distanciando de quem eu era.

Passei três meses, analisando cada pró e contra, cada conquista, cada derrota, cada cenário diferente para a solução do que acabou não tendo solução. Quando se tem filhos, nada é somente sobre você e ou outro. Passa a afetar muitas pessoas e isso gera um peso enorme nas decisões. Levei três meses pra descobrir que aos poucos fui perdendo o prazer. Perdi o prazer de comer, de cozinhar, de dormir, deixei de aproveitar meu sacro santo lar, deixei de fazer coisas que acreditava serem importantes. E o pior de tudo foi descobrir, ao tentar escrever sobre a fé, que eu não a perdera, mas guardara numa das caixas da minha mudança e agora não conseguia descobrir onde ela estava.

Esquecer a fé é como perder o ar que respiramos. Perdi a mim mesma e hoje tenho que me encontrar. Esse ano foi o ano mais agitado da minha vida. Fiz muitos planos, acreditei que eram reais os sonhos alheios, a crença alheia e me perdi de mim. Desfiz-me do meu eu, de quem eu sou, perdi meu chão, meu alicerce, minha viga de sustentação.

Fé é uma daquelas palavras que são difíceis de explicar ou teorizar. Fé é uma experiência individual, intransferível, e única na sua magia. Precisei escrever sobre algo que não conhecia, ver uma filme que pressentia se necessário, tudo isso para descobrir que preciso me perdoar por erros que não cometi e redescobrir minha fé.

Seis anos atrás eu vi um filme que, mais tarde, me ajudou a passar por um momento muito difícil, mas não tão difícil como este agora. Era a história real de uma escritora e crítica de livros chamada Mayer. Seu casamento acabou inesperadamente. Enquanto trabalhava como crítica de livros para sustentar a casa, seu marido dizia escrever um livro. Só que na verdade ele tinha um caso com uma jovem muito mais nova. Nos EUA, aquele que sustenta a casa, homem ou mulher, deve ao cônjuge pensão no divorcio. No acordo, seu marido ficou com a casa e ela teve que mudar para um prédio de divorciados. Suas amigas lhe pagaram uma viagem à Itália que mudaria sua vida por uma série de fatos engraçados e trágicos.

Às vezes, mudanças como esta, apesar de parecerem ruins num primeiro momento, servem para nos mostrar que outros caminhos são possíveis. Para Mayer, sua vida acabara com o divórcio, uma vez que as pessoas não se casam para separar-se depois. E esse sentimento tomou conta de sua vida. Abdicara de escrever para trabalhar com algo que não lhe dava prazer, mas pagava as contas. Foi traída pelo homem que jurou amar até a morte e teve que reconstruir sua vida do nada num lugar que não conhecia e num país cuja língua não falava. Mas foi essa série de fatos atípicos e instigantes que fez com que ela voltasse para suas origens e se redescobrisse.

O modelo romântico de amor descrito nos contos de fadas e nos filmes holliwoodianos nem sempre condizem com a realidade. O final feliz nem sempre é como desejamos. Não são poucos os momentos em que o final feliz é o resultado de um processo de cura para um coração partido. Meyer descobriu isso e transformou sua experiência em um livro. Esse mês estreou um filme com uma história parecida (Comer, Rezar, Amar), também baseada na vida de uma escritora americana, Elizabeth Gilbert, que depois de um doloroso processo de divórcio resolveu ficar sozinha e viajar durante um ano. Foi esse filme que me mostrou o que faltava em minha vida. Embora as últimas decisões eu tenha tomado antes dele.

Tem uma cena em que ela está sozinha no banheiro, enquanto o marido dorme no quarto e ela chora muito. Ela diz pra si mesma que não quer estar casada, que não quer a vida que construiu. Ela olha pra tudo ao redor e diz que não quer aquilo. Foi engraçado descobrir que não sou a única. Eu tenho filhos, ela não os queria. Ela descobriu que o caminho dela era ficar por um ano sozinha viajando para se encontrar. Tanto Gilbert quanto Mayer não tinham casa/lar, elas precisaram construir isso. Eu descobri que preciso construir um lar dentro de mim, uma vez que casa eu já tenho. Eu vivia uma ilusão, e agora preciso me desfazer dela. Eu achava que tinha um lar, mas eu só habitava uma casa vazia de mim.

Não gosto de receitas de bolo. Elas nos encarceram. Prefiro saber os ingredientes que são importantes e experimentar acrescer coisas novas, experimentar alterar as medidas de cada ingrediente. Tem vezes que acreditamos que um ingrediente é primordial, quando ele pode ser facilmente substituído ou extirpado da receita.

Acreditava ser impossível fazer um bolo sem farinha, ou fermento. Mas uma senhora me ensinou a fazer bolo sem nenhum desses ingredientes e o bolo cresceu. Nem sempre as coisas que parecem mais importantes na nossa vida, realmente o são. Conheci uma pessoa que dizia que nada nem ninguém era insubstituível, e apesar de ter me revoltado com ele na época, hoje posso entender melhor o que ele disse.

Não sei se acho ruim não existir uma pílula mágica que resolva de uma vez todos os nossos problemas. Cientistas do mundo inteiro buscam fórmulas mágicas pra melhorar a vida das pessoas. Li que criaram um remédio pra solucionar o problema sofrido por quem voa muito. Mas como disse, não sou fã de receitas de bolo. Gosto de esmiuçar a vida em busca de novas fórmulas, novos caminhos, novas direções.

Tem uma música muito bacana da Vanessa Da Matta que diz “as coisas não são assim, não é vovó, são coisas que a gente não escolhe não dá. As coisas do coração, não é vovó, elas são como são e a gente muda. Amanhã não quero confundir atração sexual com ilusões de amor puro...”. Disse para um amigo recentemente que as ilusões não podem ser impedidas. Criamos pré-conceitos o tempo todo sobre tudo, e até sobre nós mesmos. Tais pré-conceitos são nada mais que ilusões. Ilusões são necessárias para que não sejamos pessimistas o tempo todo. A fantasia é tão necessária quanto a realidade. Ambas em excesso geram dor e sofrimento, mas equilibradas geram prazer e felicidade.

Lembro-me que quando adolescente era comum olhar um cara bonito e ao aproximar-me dele perceber que era um estúpido. Isso não quer dizer que os caras feios eram melhores, mas sim que as aparências enganam. Maria Betânia cantou uma música que foi tema da abertura de uma novela que falava sobre isso: “As aparências enganam aos que odeiam e aos que amam...”.

As ilusões são, de certa maneira, inerentes a nossa razão. Segundo Platão, os sentidos são ilusórios e apenas a razão pura é confiável. Ao olharmos o sol não temos como perceber seu real tamanho, para nós ele parece menor do que a Terra. Todavia a ciência, razão pura (?), provou que isso é apenas ilusão de ótica. Segundo um amigo, quando olhamos para o sol, vemos um ser tranqüilo, mas sabemos que ele passa longe de ser tranqüilo, e que ocorrem explosões o tempo todo nele, e que as ondas magnéticas derivadas dessas explosões são um risco para o nosso planeta.

Ilusões, fantasias, dor e felicidade são fatores que muitas vezes se misturam em nossas vidas, e há momentos em que ocorrem ao mesmo tempo. Temos muita dificuldade de lidar com os sentimentos que nos levem a sentir dor. Tive um professor de filosofia que dizia que o caos muitas vezes é necessário para que nossa vida se mova, para que ajam transformações essenciais para nossas vidas. O desequilíbrio faz com que nos movimentemos para readquirir o equilíbrio, esse movimento nos proporciona renovação.

Em oito anos mudei de casa por oito vezes. Cada vez que me mudava pensava quanto tempo ficaria. Algumas vezes eu mudava de idéia quanto a casa em poucos meses, a penúltima casa em que morei fiquei por quase três anos. Quando vemos uma casa não a conhecemos, conheci uma arquiteta que dizia que necessitava morar e observar durante meses a incidência de luz para definir a cor de cada parede ou cômodo. Com o tempo a casa era capaz de dizer a ela o que queria.

Cada mudança foi dolorosa e, embora relativamente perto, custosas e demoradas. Levo quase um mês pra dormir direito em um lugar diferente. É o tempo que preciso pra me adaptar ao novo. Conheço pessoas que não demoram pra se adaptar e outras que necessitam repetir várias vezes o mesmo caminho pra se adaptar.

De qualquer maneira, há um desconforto inicial com o novo, que só é dirimido quando este deixa de ser novo e passa a figurar o velho, o antigo, o hábito. Necessitamos de tempo, e este é o melhor remédio que há. Minha amada avó dizia que quando não há o que fazer, o melhor é comprar feito.

A vida é um palco que não nos permite ensaios, é sempre uma estréia. Ouvi isso de uma amiga e não sei dizer de onde ela tirou. Meu palco caiu, terei que reconstruí-lo. O amor que acreditava ser perfeito mostrou-se irreal. Resolvi que vou começar minha jornada de auto conhecimento redescobrindo o prazer de estar em casa. Vou começar arrumando minhas coisas, voltando a cozinhar, limpando tudo por fora, pra ver se a parte de dentro fica mais clara. Depois tenho que descobrir um jeito, um caminho para reencontrar a minha fé.

Desejem-me sorte.

“ Vim gastando meus sapatos

Me livrando de alguns pesos

Perdoando meus enganos

Desfazendo minhas malas

Talvez assim chegar mais perto

Vim achei que eu me acompanhava

E ficava confiante

Outra hora eu era o nada

A vida presa num barbante

E eu quem dava o nó

Eu pensava em nós dois

Mas já cansava de esperar

E tão só eu me sentia

E seguia a procurar

Esse algo, alguma coisa

Alguém que fosse me acompanhar

Se há alguém no ar

Responda se eu chamar

Alguém gritou meu nome

Ou eu quis escutar

Vem que eu sei que ta tão perto

E porque não me responde

Se também tuas esperas

Te levaram pra bem longe

É longe esse lugar

Vem nunca é tarde ou distante

Pra eu te mostrar os meus segredos

A vida solta num instante

Tenho coragem, tenho medo

Que se danem os nós.

Se há alguém no ar

Responda se eu chamar

Alguém gritou meu nome

Ou quis escutar.”

(Ana Carolina)

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

A Magia do Circo

Certa vez ouvi um amigo falar que depois que proibiram os circos de fazerem números com animais, o espetáculo tinha perdido a graça. Nunca havia ido a um circo até hoje. Promessas, ouvi várias durante a vida. Mãe, irmã, irmão, amigos, vizinhos, namorados, todos em algum momento prometeram me levar ao circo e nada.

Antes de ontem, após sair do cinema, vi que o circo estava na Quinta da Boa Vista, e resolvi que no dia seguinte eu abriria mão de estudar pra realizar meu grande desejo, e passar algum tempo divertido com meus filhos. Desde que resolvi voltar a estudar, pouco tempo proveitoso tenho passado com eles. O tempo é algo complicado, muito tempo não significa tempo proveitoso, assim como o inverso não.

Sei que fiquei maravilhada e me senti uma criança. Tudo era muito bonito e bem trabalhado. Belas e talentosas pessoas. E como não podia deixar de ser, houve erros. Mas o mais importante é que ninguém se deixou abater pelos erros e o espetáculo foi maravilhoso. O circo se renovou e senti um prazer indescritível. Algo me chamou atenção de forma inexplicável. Havia um rapaz numa cadeira de rodas que deu um espetáculo à parte.

É incrível como podemos nos surpreender. O mais maravilhoso não foi o que ele conseguiu fazer, mas a alegria intensa e contagiante que resplandecia nos olhos dele ao executar seu momento. Era impressionante. Olhando pra ele senti como se ele pudesse voar. Ele tinha asas. Adoro quando vejo alguém tão entregue. E ele estava entregue ao sonho, a superação.

Limitações todos temos, só não podemos permitir que isso emperre nossa vida e nos faça desistir de nossos sonhos. Ao longo dos poucos anos que tenho de vida conheci diversas pessoas. Pessoas ditas normais que se encarceravam em seu mundinho e se fechavam pra realizações e sonhos; e pessoas ditas normais que buscavam o seu sonho. Encontrei pessoas que se deixavam levar pelas limitações impostas por si mesmas e por outras pessoas. E outras que viam no céu apenas um obstáculo até a lua; obstáculo esse atravessável.

Quando as pessoas me diziam que algo era difícil gostava de dizer isso: depois que o homem foi a Lua, o céu deixou de ser o limite. Conseguimos tanta evolução, tanto conhecimento, por que algumas pessoas ainda se sentem presas a limitações que não existem?

Esse rapaz não se limitou às pernas que não “funcionavam”, ele aprendeu a usar os braços, a fortalecer o tronco e rodopiar no chão. Aprendeu a usar a cadeira como ferramenta e não como limitação a sua vida. Não sei as dificuldades ou barreiras que ele enfrentou ou enfrenta, mas ontem vi um homem que venceu tudo pra viver um sonho. E o fez da melhor maneira possível. Sendo uma estrela brilhante. Iluminando todos com sua magia e arte.

Quero ser assim, iluminada e vencedora. E espero poder iluminar quem lê minhas postagens, resplandecendo a luz que recebi de outros iluminados.

“Não
Não sei se é um truque banal
Se um invisível cordão
Sustenta a vida real

Cordas de uma orquestra
Sombras de um artista
Palcos de um planeta
E as dançarinas no grande final

Chove tanta flor
Que, sem refletir
Um ardoroso expectador
Vira colibri

Qual
Não sei se é nova ilusão
Se após o salto mortal
Existe outra encarnação

Membro de um elenco
Malas de um destino
Partes de uma orquestra
Duas meninas no imenso vagão

Negro refletor
Flores de organdi
E o grito do homem voador
Ao cair em si

Não sei se é vida real
Um invisível cordão
Após o salto mortal”

(Chico Buarque – O circo místico)

sábado, 16 de outubro de 2010

Comer, Rezar, Amar

Todos têm o desejo de em algum momento saber o futuro. Desde a estréia do filme “Comer, rezar, amar” tenho tentado vê-lo. Senti como se fosse mister assistir esse filme e comecei a escrever sobre ele antes mesmo de ver, e essa necessidade fazia-me sentir como se minha vida dependesse disso. Acredito que tal fato é derivado de uma tentativa, mesmo que frustrada de adquirir esperança.

Primeiro imaginei que como não conseguia companhia, imaginei como seria vê-lo sozinha. Nunca havia feito isso antes, sempre fui ao cinema acompanhada por alguém. Imaginei como seria triste sair do cinema sem ter ninguém pra comentar.

Acredito que nesse ponto tenha me subestimado muito. Como não gosto de ficar sozinha, quase sempre invento um jeito de conhecer pessoas. E desta vez não foi diferente. Apenas alguns dias atrás, eu cedi aos meus amigos e criei uma conta no Facebook. Acho que no fundo eu estava caçando borboletas, e me peguei num lugar onde não existia nenhuma delas. Todavia reencontrei um velho amigo, um ex colega de trabalho, e combinamos de ver o filme juntos.

Sai sem muito desejo de comentar com ele o motivo por ter ficado tão feliz com o filme. A companhia dele foi bacana, ele é uma pessoa muito legal. Quando saímos do cinema ainda comentei sobre a autora com duas mulheres que desciam a escada rolante conosco. Depois conheci uma senhora muito simpática na fila do ônibus. Uma das grandes lições aprendidas por Gilbert em sua viagem pelo mundo foi de que devemos aprender com cada pessoa que encontramos pelo caminho. Acho que isso eu conheço bem.

Acredito que o aprendizado é melhor assimilado quando compartilhamos nossas descobertas com outras pessoas. Por isso sempre estou predisposta a conhecer pessoas. Esses momentos sociais me ajudavam a fugir de algo que sempre me perturbou e que, creio, ainda me perturba. Às vezes sinto como se minha missão fosse ajudar as pessoas libertando-as de seus fardos e ajudando-as a carregá-los. E sempre imaginei que meu destino, embora eu me questione o tempo todo sobre sua veracidade, fosse viver só.

O filme que vi foi sobre uma mulher que, após o divórcio, sentiu a necessidade de movimentar sua vida e descontruir-se para depois se reconstruir. Num momento de extrema dor e falta de ânimo, ela percebeu que era hora de mudar, e resolveu viajar para os lugares que acredita serem capazes de lhe devolver o que havia perdido. Comer, rezar e amar, talvez sejam às três máximas de nossas vidas, as três grandes descobertas dessa mulher.

Ela disse a uma amiga que, embora sempre tivesse apreciado a comida, naquele momento ela não tinha vontade de comer. Ela perdera o prazer de comer. E comer é algo que proporciona um prazer inacreditável, pelo menos pra mim. Além de saciar a fome, a comida revela muito sobre quem somos; não apenas pela maneira como comemos, mas também por aquilo que comemos. Podemos saber os costumes, crenças e hábitos dos povos apenas olhando para o que eles comem ou comeram. A comida está intimamente ligada com a história e com o desenvolvimento humano.

Segundo arqueólogos e historiadores, no inicio éramos grupos de clãs nômades que comiam aquilo que caçavam, além de raízes e frutos que eram colhidos pelo caminho. Íamos onde havia comida. Em todo o livro de Gênesis, vemos essa movimentação constante das tribos ou clãs em busca de um lugar com fartura de alimentos. A migração dos hebreus para o Egito acontece por conta da escassez de alimentos. Em Êxodo, a promessa da terra que emana leite e mel faz com que o povo hebreu volte para as terras de Canaã. Esse é só um exemplo simplório, uma vez que nesse período a agricultura já era de conhecimento de alguns povos. Mas que nos ajuda a entender melhor essa relação antiga do homem com a comida. Em outra parte da Bíblia, lemos que Deus dera um alimento chamado maná, cujo sabor era delicioso e que supria todas as necessidades nutricionais do povo hebreu.

Com a agricultura, pecuária e o comércio, começamos a nos organizar em cidades. A culinária foi se aperfeiçoando e ganhando ares de arte, com chefs gourmet. Hoje temos restaurantes de todos os tipos e para todos os gostos, pelo menos nas grandes metrópoles. A comida revela além do que já foi citado, o status de quem come. Embora haja restaurantes pra todos os gostos, alguns só podem ser freqüentados por quem pode pagar pelo luxo oferecido. Esse status varia também dependendo de onde estamos.

No Brasil é comum encontrarmos árvores frutíferas e comer a fruta colhida na hora. A fartura desse tipo de alimento faz com seus preços sejam relativamente baixos para nós, se comparado com alguns produtos industrializados. Uma amiga viajou para Munique a fim de visitar uma prima. Todavia para sua infelicidade a bagagem foi extraviada. No desespero e com o atraso da prima que a buscaria no aeroporto, ela tentava explicar a situação para os funcionários da companhia aérea, mas como não falava nenhuma língua além do português, ficou confusa e desesperada.

Depois de resolvida a situação, a funcionária da empresa ofereceu bananas pra essa minha amiga, que se revoltou com tal atitude. Foi então que ela descobriu que lá na Europa a banana era artigo de luxo, bem mais caro que muitos chocolates finos. Eles têm que importar frutas tropicais o que as torna caras.

Após redescobrir o prazer de comer na Itália, Gilbert viajou para a Índia em busca de sua elevação espiritual. Rezar/orar é algo que nos eleva de certa maneira. A meditação procedente da religião, sua filosofia, nos faz buscar a elevação, não apenas espiritual, mas também pessoal. Para mim foi muito fácil falar sobre o prazer de comer. Gosto de escrever, e não entendi quando ao falar sobre a segunda parte eu travei. Somente após ver o filme consegui entender o motivo pelo qual eu não conseguia escrever. Assim como a escritora americana, eu necessito passar por um processo de redescoberta para poder falar sobre fé.

Não que eu não a tenha, mas nesse específico momento eu necessito me libertar das coisas do passado, descobrir meu eu interior e só depois falar sobre fé. Tem uma cena do filme muito interessante onde ela busca meditar, só que tudo a atrapalha. Olha no relógio e não se passara nem um minuto desde que tentara meditar. Meditação é algo que temos que fazer de dentro pra fora. Libertar-nos de nossos pensamentos e angústias é muito difícil. Sempre tive admiração pelas pessoas que conseguem entrar em êxtase meditando. Para mim, apenas o sexo propicia tal transcendência.

Quando Liz Gilbert chegou a Bali, ela havia redescoberto o prazer de comer e a liberdade de não se sentir culpada por aquilo que ela não era capaz de controlar. Somos responsáveis pelas nossas ações, mas não pelas ilusões que as pessoas criam de nós. Em Bali, ela descobriu que sua viagem a havia transformado em uma pessoa melhor. Que havia ensinamentos que não podiam ser aprendidos sem a interação da oportunidade com a disponibilidade. Que muitas vezes precisamos vivenciar a dor da perda antes de entendermos melhor o que necessitamos.

Amar é algo que buscamos desde o nascimento. Segundo Adriana Calcanhoto, o amor é sobre-humano. E não falo apenas do amor romântico, mas todas as formas de amor, ou todas as vertentes de amor. Lembro-me de um filme com a linda Natalie Portman, onde ela com um bebê nos braços, pergunta como pode alguém amar um ser que acabou de conhecer. Esse é o amor de mãe, que alguns dizem ser altruísta, mas que eu acredito que não seja. Mãe é sempre um bicho engraçado, alguns gostam de dizer que mãe só muda de endereço, mas não é verdade. Cada mãe é uma mãe diferente, com algumas sutis semelhanças e, por vezes, muitas diferenças.

O amor altruísta é aquele que não pede nada em troca. Aquele que se entrega sem exigir retribuição. E embora muitos acreditem possuí-lo, ele existe de maneira muito escassa no mundo. Madre Teresa de Calcutá é considerada como um exemplo de pessoa altruísta. Conheci pessoalmente algumas. Tenho um amigo que sempre foi assim, ele brinca dizendo que mudou, mas espero que seja mentira. Ele é meu amor de paixão, um ser incrível e muito divertido. Um grande amigo que mesmo na distância não foi ausente num dos momentos mais difíceis da minha vida.

O amor romântico todos conhecem, é o mais procurado, embora seja, para mim, o menos importante. Ele é a sina de muitos. Tenho uma amiga que depois de muitos anos, e vendo a juventude passar, desistiu de procurar sua cara metade. Talvez essa tenha sido a atitude mais inteligente dela. Pois ela conheceu o seu amor, e casou. Levou quase uma vida e chegou num momento em que ela não pode mais gerar filhos, mas isso é só um detalhe.

Também conheço pessoas que buscaram a vida inteira esse amor idealizado e que perderam muitas chances de felicidade, ficaram tão obcecados por essa fantasia que não foram capazes de viver outras possibilidades. O sofrimento e a culpa consumiu sua juventude e tornou sua velhice solitária. Vocês sabem que não sou romântica, e que não acredito no “felizes para sempre”. Mas devemos parar de aceitar essa ilusão holliwodiana e perceber que a solidão é inerente ao fato de termos alguém do lado. Ela é inerente a nossa vontade e faz parte de nós. Tememos a solidão da mesma maneira que tememos o escuro, porque eles trazem a tona coisas que nem sempre desejamos ver. Medos, sentimentos de dor, lembranças que nos assombram. Mas os sentimentos ruins não tem como ser apagados, eles fazem parte de nós e de nossa evolução. Alguns pesquisadores acreditam que a depressão é o mal do século.

Acreditava-se que a Internet e as redes sociais acabariam com esse sentimento, mas vemos ele aumentar muito. Nunca se diagnosticou tanta depressão como hoje. Qualquer tristeza vira logo um bom motivo para medicações que prometem melhorar a vida. Já estão inclusive inventando um spray que faz com que as pessoas se apaixonem. Buscamos sempre o amor e com ele a aceitação de nós mesmos, por nós e pelos que nos cercam.

Gilbert descobriu em Bali, uma junção de coisas que só foram apreendidas por ela no momento certo, e após vários processos executados. Em Bali, ela descobriu que depois de curar o coração partido, ficarmos mais fortes e equilibrados, precisamos nos desequilibrar com o amor para sermos felizes. Ela também aprendeu que família não são só as pessoas que compartilham conosco uma herança genética muito próxima, e que não é nossa escolha. Família também são aquelas pessoas que entram nas nossas vidas para nos ensinar coisas importantes e também aprender conosco. São os amigos que nos ajudam e por nós são ajudados. São aqueles que escolhemos amar.

“O que há dentro do meu coração

Eu tenho guardado pra te dar

E todas as horas que o tempo
Tem pra me conceder
São tuas até morrer

E a tua história, eu não sei
Mas me diga só o que for bom
Um amor tão puro que ainda nem sabe
A força que tem
É teu e de mais ninguém

Te adoro em tudo, tudo, tudo
Quero mais que tudo, tudo, tudo
Te amar sem limites
Viver uma grande história

Aqui ou noutro lugar
Que pode ser feio ou bonito
Se nós estivermos juntos
Haverá um céu azul

Um amor puro
Não sabe a força que tem
Meu amor eu juro
Ser teu e de mais ninguém
Um amor puro.”

(Djavan – Um amor puro)

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Uma Breve História de Desamor

Acho engraçado quando chegamos numa certa idade em que sempre começamos uma frase com “quando era mais nova”, mas quero ser piegas. Embora queira começar dessa forma, vou enlaçar minha história com uma descrição da adolescência.

Para os adolescentes tudo são oito ou oitenta, não existe meio termo. Nada é tão sofredor ou apaixonante que ter seus hormônios em ebulição e seu corpo mudado a cada dia. Nem sempre os adultos se lembram de quando eram crianças e adolescentes. Na época da faculdade, tive uma professora muito louca e muito inteligente (geralmente nas ciências humanas o pessoal é meio louco, os normais são meio estranhos e não nos marcam), ela pediu para que nós lembrássemos de um fato ocorrido na nossa infância e que nos marcara. Todo o curso foi baseado nas nossas impressões da infância.

Hoje peço que vocês se recordem da adolescência, esse momento atormentador e encantador onde deixamos de ser crianças e não somos adultos, onde a sociedade nos impõe uma série de regras e incontáveis limitações. Imaginem-se acordando de manhã e vendo que você está mudando. No começo parece ser legal, mas depois fica tudo estranho. Acho engraçada a falta de valorização da sexualidade no ensino institucional, as aulas ocorrem mais em função da fisiologia do que da subjetividade. Adolescentes são um misto explosivo de transformações fisiológicas e subjetivas, e nenhuma dessas duas pode ser negada. A discussão subjetiva é tão importante quanto o ensino dos modos de prevenção de DST’s e gestações precoces.

Na minha casa não tive um dialogo aberto com minha mãe. Esta trabalhava o tempo todo e raramente conversávamos. Minhas colegas estavam numa fase em que necessitavam escolher seus amores através de fotos de artistas e eu achava aquilo tudo muito chato. Assim, era comum ser vista na quadra de esportes da escola assistindo um jogo de futebol. Não era por conta dos meninos sem camisa, pois a maioria era feia, mas sim pelo isolamento que a observação deles me causava. Olhar a bola rolando e aquele monte de homens correndo atrás dela era engraçado. Os esbarrões, os palavrões, as faces tensas, tudo isso me reportava para um isolamento absurdo de mim mesma.

Uma dessas mães “não tenho nada melhor a fazer do que olhar a vida dos outros” começou a observar que eu passava mais tempo entre os meninos que as meninas e correu pra espalhar fofoca dizendo que eu ficava com todos os meninos da escola e que a filha dela só namoraria depois que fizesse faculdade. Pronto, lá vai minha mãe pra reunião da escola pra discutir com minhas professoras a questão. Quem interviu em meu favor foi a inspetora do colégio, ela disse para minha mãe que eu só gostava de assistir futebol e que não era pra ela se preocupar, eu estava longe de viver agarrada aos meninos. Disse que quase sempre ficava sozinha num canto olhando e que minha mãe não devia se preocupar, eu não era uma menina assanhada, como muitas outras.

Odiava a escola em que fiz o primeiro grau. Achava tudo sujo e desorganizado. Odiava ficar trancada, cercada por muros altos, com pessoas que não tinham nada em comum comigo. As meninas viviam nas suas ilusões, os meninos na sua adoração pela bola e garotas do tipo Mulher Fatal. Eu tinha doze anos, e meu desejo era algo que eu não entendia. Sinceramente eu só queria ficar só. Passava um longo tempo olhando a janela da sala onde via o vento balançar ligeiramente as folhas das árvores.

O livro de português era cheio de histórias de romance, e a professora pedia que escrevêssemos histórias parecidas. Lá foi meu outro tormento. Mais uma vez minha mãe foi chamada na escola para conversar comigo sobre o fato de estar muito envolvida emocionalmente com romance. Desta vez eu pedi que minha mãe olhasse meu livro e visse os exercícios que a professora passava.

Vocês devem ser capazes de entender minha revolta. Minha vida era música, não vou dizer que não tinha meus romances, mas minha vida era escola e casa, casa e igreja. Eu não era dada às paixões e freqüentemente mentia pras minhas amigas dizendo gostar de um carinha qualquer só pra não parecer ainda mais estranha do que me sentia.

Mesmo um pouco antes dessa época eu era chamada com freqüência à sala da direção por estar “destruindo os sonhos” de minhas colegas. Aos dez anos eu chamei as meninas de tolas por acreditarem que seus corações eram capazes de gerar sentimentos. Disse-lhes que os sentimentos provinham do cérebro, uma vez que o coração era apenas uma bomba necessária para a circulação de sangue no organismo. A professora de ciências quase enlouqueceu, ela e a diretora adjunta me disseram que eu não podia dizer isso apesar de ser verdade, que eu não podia negar às minhas colegas o direto a ilusão.

Foi nesse dia que tive certeza que dizer tudo que pensava não era a melhor forma de manter pessoas perto de mim. Aprendi que a mentira é uma boa aliada em certas ocasiões. Que as pessoas não mudam seu cerne, elas aprendem a esconder melhor o que a sociedade encara como defeito para parecerem pessoas normais.

Com quinze anos comecei a namorar em casa. Ele era três anos mais velho que eu, e um poço de insegurança. Nessa época comecei a cursar o ensino médio e era comum ele ligar pra escola pra saber da minha turma e depois me interrogar as horas em que cheguei em casa. Num dado momento nos separamos. Não vou dizer que foi doloroso. O pior pra mim foi o escândalo que ele armou em frente a minha casa ao saber que eu não havia sofrido nossa separação.

Depois tive outros tantos namoricos e aprendi a só apresentar pra minha mãe aqueles que acreditava que pudessem durar. O pior de tudo e que nenhum durava muito. Era comum eu me interessar um por cara e depois me desinteressar com a mesma velocidade que me interessei. Depois de muitas idas e vindas, comecei a me sentir mal por não me apaixonar. Acreditava até que tinha ocorrido com um carinha com quem fiquei quatro anos num namoro pingue e pongue que não revelava a ninguém. Toda vez que um relacionamento acabava eu me prostrava a chorar sozinha em algum lugar onde não pudessem me ver.

Esperava minha mãe dormir e me punha a chorar copiosamente por horas. Depois me entregava a Morfeu e quando amanhecia, de olhos inchados, percebia que a dor havia passado. Na Bíblia tem um salmo que diz “a tristeza pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã”. Muitas vezes eu sofria por acreditar que era incapaz de amar alguém.

Quando mais jovem isso caia como uma luva feita sob medida para minha mão. Até que um dia eu conheci um rapaz da minha idade, com rostinho de menino e olhos de curioso. Um ser tão iluminado que sua luz preencheu minha vida. Durou pouco, só três meses, mas quando nos separamos senti como se uma parte de mim tivesse morrido. Eu só pensava em morrer. Para o adolescente tudo tem uma dimensão infinita. Como falei adolescente são dramáticos. Todavia aquela dor serviu pra me mostrar que eu era capaz de amar.

Percebi que eu era normal, embora minha racionalidade me impedisse, por vezes, de ceder às paixões, eu era capaz de amar. Se antes eu chorava por não me apaixonar, pela primeira vez eu chorava por um amor perdido. Aquela dor pra mim foi libertadora. Não vou dizer que, como antes, minha tristeza durou apenas uma noite. Levei anos pra me recompor daquela perda. E até hoje ainda sinto algo, embora não saiba exatamente o quê. Esse resquício de sentimento não me impede de viver novos amores, e não me preocupo em encarcerar esse sentimento em alguma palavra. Gosto de deixar o sentimento fluir em mim como uma música, como um som que penetra em todo o corpo e chega até a alma.

Um amigo me disse que a música é causada pelo movimento de elétrons e nosso corpo também é composto por elétrons, então há uma interação física entre nosso corpo e a música. Aprendi que quando estamos envolvidos com alguém devemos nos entregar a essa pessoa como quem se entrega a uma música melodiosa e bonita. Devemos desfrutar ao máximo tudo que nos for entregue. Viver ao máximo todas as belezas da vida. E se tiver que chorar depois, que chore tudo de uma vez, que sua alma seja lavada pelas lágrimas. Somos feitos de água, ela tem uma interação sinérgica conosco, e depois de chorar, tomar um longo banho com cheiros de lavanda e camomila, deitar na cama e permitir que Morfeu leve com ele a nossa dor.

A esse mesmo amigo eu disse que a dor é tão necessária quanto a alegria. Ambas nos mostram quem somos e também quem poderemos ser. A dor nos lapida, nos molda, mas somos nós quem damos a direção dessa lapidação. Um amigo geólogo disse que cada pedra diz ao lapidador a forma que deseja ter, assim somos nós. Pedras brutas, moldadas na dor e na alegria, nos sonhos, nos encantos e nos desencantos. A dor não deve ser desculpa para nos tornarmos rancorosos ou duros demais. Ela deve nos propiciar a meditação necessária para transcendermos nossa existência e nos tornarmos melhores, mais fortes, mais sublimes.

Hoje tenho dois filhos, e muitas obrigações e responsabilidades, minhas decisões afetam muitas pessoas e não apenas a mim e outra. Tenho que pesar absurdamente cada passo, pois duas vidas dependem de mim e de que eu seja forte. Hoje as coisas são mais doidas. Tenho que pensar até a exaustão antes de tomar decisões. No entanto, apesar de só ter vivido pouco menos da metade da expectativa de vida da mulher brasileira, sinto que a vida me ensinou a lidar melhor com certas dúvidas comuns aos adolescentes.

Aprendi que nada é eterno. Nós não somos eternos e a vida é uma linha tênue e delicada. Se as velhas mouras decidirem, elas cortam o fio e tudo cessa. Como já falei em outro post, não me interesso muito pelo que há após a morte, uma vez que sobre isso não tenho controle algum. Interesso-me pela vida hoje, nem amanhã, nem ontem. Disse há pouco tempo pra um amigo que, para mim, o futuro a Deus pertence, mas o momento é só meu, e o passado, esse eu não posso mudar.

Não podemos nos deixar culpar por não correspondermos ao sentimento alheio. Embora acredite que a razão controla a emoção, mesmo que de forma indireta, muitas vezes somos incapazes de corresponder a todo sentimento que nos é lançado por outros. Não podemos nos culpar pela ilusão que outras pessoas projetam em nós. Devemos ser sinceros acima de tudo conosco, com quem somos. Caso contrário, aos poucos, vamos deixando de ser quem somos, para sermos quem nunca idealizamos ser.

Corações partidos são tão inevitáveis quanto corações apaixonados. A paixão é uma força destruidora e construtora, forte e voraz, impetuosa e inebriante, que faz com que movimentemos nossas vidas. O fim dela não é igual pra todos, e não deve ser, uma vez que somos todos particulares. O modo pelo qual cada um vai curar sua dor, também é muito diferente. Procuro não pensar muito nas coisas que não me pertencem. Pode parecer egoísmo, mas foi o jeito que arranjei pra não me culpar por aquilo que não me pertence, pelo que não sou capaz de controlar.

“Às vezes se eu me distraio

Se eu não me vigio um instante

Me transporto pra perto de você

Já vi que não posso ficar tão solta

Me vem logo aquele cheiro

Que passa de você pra mim

Num fluxo perfeito

Enquanto você conversa e me beija

Ao mesmo tempo eu vejo

As suas cores no seu olho

Tão de perto

Me balanço devagar

Como quando você me embala

O ritmo rola fácil

Parece que foi ensaiado

E eu acho que gosto mesmo de você

Bem do jeito que você é

Eu vou equalizar você

Numa freqüência que só

A gente sabe

Eu te transformei nessa canção

Pra poder te guardar em mim

Adoro essa sua cara de sono

E o timbre da sua voz

Que fica me dizendo

Coisas tão malucas

E que quase me mata de rir

Quando tenta me convencer

Que eu só fiquei aqui

Porque nós dois somos iguais

Até parece que você já tinha

O meu manual de instruções

Porque você decifrava

Os meus sonhos

Porque você sabe o que gosto

E porque quando você me abraça

O mundo gira devagar

E o tempo é só meu

E ninguém registra a cena

De repente vira um filme

Todo em câmera lenta

E eu acho que gosto mesmo de você

Bem do jeito que você é...”

(Pitty - Equalize)

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Blue's day

São duas da manhã e não consigo dormir, faz algumas semanas que o sono me foge como um unicórnio mítico dourado. Não consigo parar de escrever. Tenho muita coisa pra fazer, mas não consigo fazer nada além de olhar uma foto do vazio que há em mim e escrever. Resolvi publicar minha insanidade, quem sabe me expondo consigo domar meu eu inquieto e volto a dormir com os anjos lourinhos e pequenos.


Sonho acorda

Com o dia acabado

O sonho o errado

Sonho o escuro

Sonho um mundo

Livre do mundo

Sonho com tudo

Inundado pelo vazio

Sonho ou desvario

Acordo, recordo e corto

O mundo meu atiro

Vazio de um mundo recordo

Um mundo meu vazio

Desfaço, refaço, reviro

Torço, retorço, desvario

Repito, refaço, relato

Um todo totalmente vazio

Derramo, inflamo, encanto

Um sonho, pesadelo, pensamento

Oculto, inculto, recôndito

Meu anjo, meu demônio

Meu, somente meu

Meu Deus, seu Deus

Antes, durante e depois

Nas trevas, na semi luz

Embaixo da lua, do sol, das estrelas

Pecado, recado de um ser

Incompleto, desconstruido, desnudo

Não quero acordar

Não quero ver a luz do dia

Não quero acordar

Não quero sonhar

Não quero lembrar

Só quero apagar.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Desconstruindo

Quando pensei em escrever um blog, jurei pra mim mesma que não escreveria nada sobre minha vida particular. Não seria como aquelas pessoas que fazem da vida privada um show público, mas vi que é impossível escrever sem se revelar, mesmo que seja um pouco. Não há quem leia Foucault sem perceber a repressão sexual sofrida por sua homossexualidade como força motriz de sua teoria. Lembro-me que a primeira publicação que li dele revelou sua opção sexual.

Somos transcritos o tempo todo quando nos propomos a escrever. Temos uma marca na escrita. Tive uma professora da faculdade que era obcecada pelo estudo da escrita. Ela guardava todos os trabalhos para compará-los com as monografias na tentativa de pegar alguma fraude. Essa marca, característica peculiar como uma digital, não nos permite desconstruir quem somos.

Quero usar este espaço para homenagear um anjo que foi alçado aos céus há uma semana. Ela era jovem, para os dias atuais, tinha pouco mais de sessenta anos e foi uma mulher incrível. Dona Leia, foi uma ótima mãe e não importa a quantidade de filhos que tinha, sempre aceitava mais um intruso como eu, e os amava de forma igual. Era uma ótima esposa, sempre companheira e amiga.

Peço pra jamais esquecer seu sorriso encantador e o cheiro delicioso da comida que ela cozinhava. Quando a conheci, morava numa pequena casa onde a cozinha e o quarto eram divididos por uma cortina. Não me recordo de sentir tão bem e acolhida como naquele cômodo. Para mim é muito difícil acreditar que não a verei mais. Que nunca mais verei aquele sorriso e sua voz terna dizendo que preciso visitá-la.

Seus filhos sentem o consolo de saber que ela não está mais sofrendo e que se encontra nos braços do pai, mas despedidas são sempre difíceis. A existência de algo além daquilo que vemos é sempre muito difícil. A saudade é sempre uma dor crônica, tem vezes que está mais fraca, tem vezes que está mais forte. Mas sempre nos acompanha.

Perdi minha avó há dez anos e sinto a mesma dor do dia de sua morte. Eu não superei essa perda. Tenho dificuldades de lidar com perdas como essa. Mas fico feliz de saber que existem pessoas que lidam bem com a morte. Segundo o dito popular a única certeza da vida é a morte. Outro dito diz que tudo na vida é passageiro, menos o motorista e o cobrador. A dor como tudo na vida é passageira. Às vezes ela vem e volta, às vezes ela some pra nunca mais voltar...

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Eleições 2010

Sempre quis saber como se fazia o processo eleitoral em nosso país. Até o nosso século, as coisas eram feitas manualmente, hoje está quase tudo informatizado. Este ano pude participar de quase todo o processo eleitoral. E ontem, dia da eleição, pude perceber e ver que não chegamos à democracia que me ensinaram na escola. Tive a oportunidade de acompanhar alguns pólos eleitorais, e vi que nós ainda temos o voto de cabresto.

Vi eleitores sendo abordados de forma agressiva por pessoas ligadas a candidatos. Pessoas semi analfabetas que não tem a menor noção do que é melhor para si, quem dirá para o país. Os piores eleitores são os analfabetos políticos que votam pela manutenção do estado, por puro comodismo ou àqueles que votam nos candidatos ditados por outra pessoa.

O direito ao voto foi conquistado através de muitas batalhas, mas nossa sociedade ainda não foi capaz de ensinar a importância do voto. Não é incomum alguém ser eleito sem sequer saber a atribuição de seu cargo. Os eleitores vendem-se, não apenas, às promessas de melhorias locais, mas em troca de uma cesta básica ou um remédio. Não são capazes de ver que para a sociedade essa compra de voto é maléfica.

A população de baixa renda tem sido vítima de ações eleitoreiras de alguns candidatos inescrupulosos. A violência tem marcado o discurso de muitos, mas a prática está longe do ideal. Pouco antes das eleições, vimos um bairro de classe média ser feito refém de bandidos, dos quais muitos ainda não foram presos.

Essa violência fez com que as pessoas se sentissem mais próximas, a violência atingiu todos os patamares da sociedade. O medo fez refém toda uma população que se sentiu obrigada a abraçar alguém que propôs melhorias na segurança pública.

Enquanto bilhões são gastos em teleféricos e postos de atendimento 24 h, crianças, jovens e adultos se arriscam para tentar estudar em escolas com péssimas condições estruturais. Algumas com vergalhões aparentes. Professores com baixos salários, com poucas condições de trabalho e alunos agressivos e prepotentes.

Pode parecer um pouco pessimista, mas não acredito em mudança sem educação. A violência vai continuar a crescer se não deixarmos de achar que o problema é do outro. Enquanto continuarmos a aceitar a sujeira dos corruptos e não pararmos de aceitar a propina, o remedinho, a cesta básica, o paliativo instantâneo. Precisamos ver as soluções a longo prazo, e a mudança é um processo lento e gradual. Não imediato.

Só haverá o fim da violência com educação. Quando os pais deixarem de responsabilizar a escola por ensinar boas maneiras, preocupando-se apenas com a educação secular e voltada para o trabalho. Quando as pessoas aprenderem que não vivemos sozinhos e que nossa vontade não é soberana.

“Neste país corrupção,

Pontapé bundão

Puro saco de mal cheiro

Do Acre ao Rio de Janeiro.

Neste país de manda-chuvas

Cheios de mãos e luvas

Tem sempre alguém se dando bem

De São Paulo a Belém

Pego meu violão de guerra

Pra responder essa sujeira

E como começo de caminho

Quero a unimultiplicidade

Onde cada homem é sozinho

A casa da humanidade

Não tenho nada na cabeça

A não ser o céu

Não tenho nada por sapato

A não ser o passo

Neste país de pouca renda

Senhoras costurando

Pela injustiça vão rezando

Da Bahia ao Espírito Santo

Brasília tem suas estradas

Mas eu navego em outras águas

E como começo de caminho

Quero a unimultiplicidade

Onde cada homem é sozinho

A casa da humanidade”.

(Ana Carolina)