sábado, 29 de janeiro de 2011

RETORNO AO MUNDO MEU

Talvez vocês tenham estranhado minha longa ausência. Um pequeno contratempo impediu-me de escrever, meu punho direito reclamou, talvez de minha constante pressão sobre ele nos últimos meses. Ou quem sabe meu corpo já fragilizado pelo estresse do cotidiano tenha me dado um alerta pra parar um pouco. E lembrando um pouco do compositor e cantor Lenine, quando o corpo pede um pouco mais de calma, o mais sensato a se fazer é atendê-lo.

Eu estudo todos os sábados, e confesso que há dias em que eu gostaria de parar tudo e me prostrar diante do ócio. Todavia minha particular inquietude não me permite a prosclastinação de meus desejos e necessidades. E quando ambas caminham juntas, fica ainda mais difícil sucumbir a preguiça. É incrivel como sinto uma alegria absurda em estar num sábado de sol em uma sala repleta de pessoas com distintos interesses, reunidas no intuito de ter uma carreira pública.

Hoje eu levei meu primogênito pra aula. Fiquei preocupada por ele não levar nada pra se ocupar durante as sete horas de aulas massantes. Minha ingenuidade não me fez ver que seu brinquedo preferido era eu. Depois de folhear por horas uma de minhas revistas e material de estudo, ele pôs-se a brincar com meus cabelos e outras partes do meu corpo.
As aulas foram maravilhosas, sempre me sinto um pouco mais animada depois de ter uma boa aula no curso. Acho uma pena que a endorfina liberada nessas ocasiões não se perdure pelo resto da semana, de maneira a me fazer sentir vontade de estudar contabilidade geral e pública.

Como estamos no horário de verão, ainda tive a oportunidade de presenciar o belo entardecer, deliciando-me com as belas praias da Zona Sul do Rio de Janeiro. O céu multicolorido me fez pensar em como tendemos a nos ater as coisas ruins de nosso dia, menosprezando momentos, quase mágicos, que a natureza nos proporciona. Não há um amanhecer igual ao outro, assim como o entardecer.

Gosto particularmente do entardecer, embora minha miopia cause certa dor nos meus olhos com a meia luz crepuscular. Como escreveu brilhantemente Pitty, quando está escuro eu me sinto melhor. Não sei se pela certeza de que em breve estarei em casa, reclusa no meu sacrosanto lar, ou se por ter sobrevivido a mais um dia. Só sei que sinto um alivio absurdo quando o sol se põem. Eu também gosto do amanhecer. Em tempos de faculdade, era comum eu apreciar o amanhecer na Praia Vermelha, após longas horas de bate papo com meus amigos.

Mas não há momento melhor para mim que o crepusculo. É como se a ausência de luz natural fosse como um manto aconchegante nos dias de inverno. Como se a escuridão me abraçasse de modo terno e doce. Como se a vida se resumisse a ternura da noite. E nas noites de lua cheia, sinto como se aquele fosco reflexo do sol fosse uma maravilhosa forma de reenerginar minha alma cálida de novos sentidos.

Não é a toa que a lua foi considerada como simbolo dos amantes. A escuridão ao redor dela, passa um ar mítico, místico e misterioso que atrai a atenção do mais cético dos seres humanos. Várias músicas, poemas, histórias e contos são inspirados nessa princesa do céu noturno. Ela encanta a todos mesmo quando não está visivel. Influencia as mares e os partos, nos ajuda a marcar os dias quando não estamos dispostos a olhar o calendário.

O céu desperto aberto a cor
Despacha o cansaço e a vida segue
No alto do morro o sol entregue
Vai se despedindo da cidade
A lua desponta do outro lado
Vai crescendo no horizonte arcado
As luzes artificiais vão colorindo a cidade
E a escuridão prevalece no mar
Que belo encanto a noite traz
E a prenuncia do descanso satisfaz
A alma do nobre trabalhador
E a alegria do badalador nasce
Com a esperança de muitas alegrias.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Melane e eu

Queria eu viver sem ti
Queria eu não te sentir tão perto
Maldita mandragora que me alucina
Você me faz sentir fraca
Você me mostra o quanto sou frágil
Eu odeio isso
Odeio não ser mais forte
Odeio desejar tanto...
Querer tanto...
E no fim ser arrebatada...
Ser silenciada...
E sozinha ter tua companhia.

Eu te dei um novo nome.
Eu quero recontar tua história
A minha história...
Melane é um bom nome
Pra eu não recordar tua agrura
Mudando o nome quem sabe...
Não mude a história.
Ou talvez simplesmente...
Eu te desconheça.

Estou aqui e não te quero
Não quero mais sentir teu gosto amargo
Você me soa como fel
Como um misto de enxofre e alho
Um cheiro que impregna na minha pele
Que gruda em mim como graxa
Que me consome e me alastra
Fazendo de mim um pedaço de papel
Você é nefasta, cruel...
Mas eu não te odeio
Eu não consigo...
Não é da minha natureza odiar.

Você vem travestida de bruxa
E há momentos em que me mostra
Que há esperança
E quando essa amiga te toma o lugar
Você se desespera
E volta a me encher com suas bobagens
Você me deprime
Me deixa confusa e amarga
Você tira de mim tudo de bom
Me joga no chão
Me tira o prazer
Mas eu devo admitir...
Voce me movimenta
Você me faz querer mais
E é por isso que eu sei...
Que apesar da dor
A vida é válida e...
Ainda há boas razões pra viver.

Você não vai me vencer
Eu sei onde você mora
E eu sei como tirar você de lá.

Sua morada não tem segredos
Você mora dentro de mim
E eu me conheço...
Eu conheço seus passos...
Eu não desisto e você?

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Presente de Grego

A tristeza, o tormento, a angustia...

A alegria se dissipou como o vento.

Foi embora sem dizer adeus.

E eu me prostro diante do inesperado

Esse algoz que teima em ser mal às vezes.

Thanatos e Hades desejam novas almas

Érebos lançou-se sobre mim como um manto

E sobre aqueles que amo.

Com suas asas, Érebo veloz o tomou...

Mas a alma ainda vive no meu amado amigo

Thanatos não o tomará pra si facilmente...

Peço, humildemente a urgência de Apolo

Socorre aquele que está em perigo

Alcance ele a graça e a misericórdia

Que ele não entre no Tártaro

Não antes que tenha vivido o suficiente

Amado o suficiente...

Ousado o suficiente pra perceber

Que a vida é mais do que simplesmente...

Orfeu console minha amiga

Que vê seu amado dormindo profundamente

Pede a Calíope sua mãe para cantar-lhe

A bela canção da esperança

Afaga seu rosto vermelho de choro

Diga-lhe que há retorno

Atenas dê coragem e força

Há duas guerreiras necessitando de seu auxilio

Amazonas feridas pela guerra da vida

Uma mãe e uma amante esposa

A chuva que cai nesta cidade

É a representação das lágrimas do céu

Lágrimas ansiosas de um sorriso teu

Desejo que retorne de seu sono

Para alegrar nossos corações

Aquiete novamente nossa mente com teu sorriso

Enriqueça nossa vida com teu escárnio

Vamos debater como aristocratas romanos

Vamos nos debruçar sobre o vinho de Baco

Estou te esperando pra uma próxima rodada...

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Exemplo de Superação

Tem momentos na vida em que desistir parece ser a melhor opção. Tudo parece muito difícil e viver é um martírio. Há momentos em que não vemos saída para nada. E é mais fácil se prostrar diante dos obstáculos do que rompê-los. Pensamos como Schopenhauer que não há nada de bom nesse mundo e que nossa vida é só sofrimento. Muitos se enclausuram em si mesmos, e param de acreditar em coisas boas e na beleza de pequenos momentos.
Estava no ônibus indo buscar meus filhos na casa da minha mãe e conheci uma senhora muito simpática que me contou que durante toda a vida nunca conseguiu aprender a ler e escrever. Casou-se cedo e foi abandonada pelo marido com dois filhos. Fiquei pensando na dificuldade dessa mulher em criar dois filhos não sabendo ler nem escrever. O pior é que ela sequer conseguia escrever números. Não conseguia ligar pra ninguém sem ajuda.
Acho que somente vivendo em um lugar onde desconhecesse completamente a língua escrita eu poderia sentir o que essa mulher sentiu por toda a vida. Mas apesar das dificuldades, ela criou sozinha os dois filhos, trabalhou, ajudou e ajuda seus filhos, netos e bisnetos. E alguns anos atrás ela resolveu estudar e se orgulha de si mesma por estar lendo e escrevendo. Com muita humildade ela me mostrou seu caderno de exercícios, enquanto contava, com os olhos mareados, o quanto isso a deixava feliz.
Ela me contou que algumas vezes achava tudo muito difícil e se entristecia acreditando que não seria capaz de aprender. Eu lhe disse que ela era capaz, que momentos de dificuldade sempre existiriam, mas com força de vontade essas dificuldades poderiam ser transpostas. Disse-lhe que Deus existia dentro dela e que se Ele podia todas as coisas, ela também poderia. Seus olhos se iluminaram de uma forma incrível e ela me disse que se lembraria de minhas palavras toda vez que algo parecesse impossível ou muito difícil.
Ela desceu do ônibus e sei que dificilmente a encontrarei de novo, mas fica em mim a lembrança de alguém que não se deixou abater pelas diversidades da vida e seguiu em frente buscando sua superação.


Pego-me errando e incerto de meu caminho
Pego-me correndo no deserto que há em mim
Pego-me vivendo o choro de algo que não existe
Pego-me olhando pro alto em busca de uma resposta.

A resposta não vem
Eu também não vou
A vida passa num instante
E abatida com minha triste companhia
A melancolia.

Maldita ou bendita
Ela me atormenta
Ri da minha cara
Faz pouco caso de mim
E me enfrenta

Eu cedo
Recebo
Adormeço em seus braços
Reconheço seus abraços
E me perco em seu aconchego

É estranho sentir que ela faz parte de mim
Uma parte ruim e boa
Ela me faz acordar e lutar
Porque se ela não me enfrentasse
Eu não me moveria

Sentir frio é normal
Sentir calor é normal
Sentir fome é normal
Sentir desejo é normal
Sentir tristeza é normal
Se entregar a tristeza pode não ser normal...

Mudanças são naturais
A relutância em mudar não é natural...

domingo, 5 de dezembro de 2010

O Mar e Eu

Estava conversando com um amigo muito querido hoje, e contei pra ele minha experiência quase mística com o mar. Depois de cantar uma palhinha de um fado pra um amigo meu, o pessoal do trabalho dele ficou me chamando de sereia, então quando contei pra ele minha relação platônica com o mar ele riu e disse que entendia melhor que ninguém o motivo de eu ser chamada de sereia.

Bem, contei pra ele que mesmo não entrando na água, quando estou triste o mar sempre me ajuda a regenerar meu corpo e alma. Poseidon reina soberano nas águas salgadas do mar. Ele e a água são uma só personalidade, então há momentos em que o mar está calmo como a água de uma piscina, momentos em que a maré baixa nos permite ver um pouco mais o fundo de areia próximo à praia. Todavia, há momentos em que o mar está revolto e suas águas são mais perigosas que um leão faminto. É quando o mar está de ressaca que percebemos que ele não é sereno, mas um grande perigo.

O homem que subestima o mar é tragado por ele e desaparece, mas aquele que o respeita tem sua vida preservada. O mar de ressaca bate fortemente no que estiver no seu caminho, levando destruição por onde passa. Suas correntezas são traiçoeiras como um coração magoado ou como uma das velhas mouras, que cortam o fio da vida de pessoas muito jovens que ainda teriam muito pra viver.

Mas não temos como não olhar para o mar sem perceber sua beleza e sedução, mesmo quando ele parece muito bravio, e ainda assim atrai surfistas e loucos para si. As ondas do mar levam e trazem tudo que lhes é jogado. Não a toa algumas pessoas gostam de usá-lo como lugar para descanso de cinzas de algum ente querido, ou mesmo para lançar a dor de um amor perdido, ou o desejo de novos tempos, de novos desejos e realizações.

Desde os tempos mais remotos o mar sempre foi motivo de medo e admiração por nós. Sua beleza, seu ímpeto, seu cheiro, sua força e ousadia... o mar é sempre o mar, com seus tons de verde e azul, com sua estranha e linda sinfonia. Gosto de pensar em quantas histórias de amor, de dor, de alegria, de tristeza, de amizade, enfim, quantos sentimentos e histórias ele já foi capaz de presenciar e de esquecer como quem jamais tivesse existido antes.

É engraçado como me sinto quando vou a praia, mesmo que seja de noite, mesmo que eu não entre no mar e sinta seu doce toque na minha pele. Ainda assim sinto como se eu e o mar fossemos um só, ou parte de algo em comum. É nesses momentos que me recordo do meu breve encontro com as teorias da física quântica, e penso que talvez minha sensação tenha sentido. A água do mar evapora, é lançada no ar e encontra minha pele, meu corpo e o toca, e nesse momento passa a fazer parte de mim, passa a existir em mim. Assim também, meu suor evapora e é levado pelo ar para o mar e o toca, parte de mim está no mar.

Sei que parece loucura, mas sinto isso de forma tão intensa e mágica, é como se não houvesse barreiras entre mim e a água salgada do oceano. É como se nós fossemos amantes de longa data. Amantes afastados por algo ou alguém, e talvez esse alguém seja mesmo uma bruxa má invejosa por nossa relação de amor intenso, que nos separou.

O mar, meu Poseidon vive em mim como uma força estranha, única e poderosa. A água tem o poder de purificar minha alma. Eu e meu eterno amante, eternamente distante, e eternamente próximos, nos unimos em raros momentos de prazer puro e sublime, porque o amor é sublime, é soberano e é sobre-humano. Não pude encontrá-lo ontem como desejava, mas sei que ele está a minha espera tão ansioso quanto eu.

Como diz Dorival Cayme: “A onda do mar leva, a onda do mar traz. Quem vem pra beira da praia não volta nunca mais...”

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

A Nuvem Negra e o Fogo Renovador

De repente me encontrei envolvida numa profunda nuvem de escuridão; e cercada pelo medo e a insegurança fui me entregando a ela como uma criança perdida se permite ser levada pelo primeiro adulto que a oferece ajuda. Estava tomada pelo conflito que se apoderava de mim: devia me entregar às trevas ou não? Será que eu deveria buscar fugir daquela nuvem que me envolvia e atordoava?

Um silêncio se apoderou de mim, e meus pensamentos se calaram. Como uma rocha que sente a batida incessante da água, ora fria, ora quente, eu sentia tudo e não era capaz de me mover. Dizem que a água bate até furar a pedra, eu não sei bem como, e nem porque, mas parecia que minha inércia era completa. Estava tão estática que a água sequer tocava a minha alma fria e desconsolada.

Renato Russo dizia em uma de suas canções que sempre existe um caminho, mas naquele fatídico momento eu não via caminho. Quando as sombras negras tentam nos tomar, não somos capazes de pensar ou mesmo de entender o que está acontecendo. A entrega total e sem luta parece ser sempre a melhor solução. É uma morte rápida e sem muita dor, como um tiro na cabeça.

Mas por que se entregar sem lutar? Se entregar ao vazio é como se tornar invisível. Como se nunca tivesse existido. Mas há momentos em que ser invisível é bom. Principalmente nos momentos em que a dor é tão grande que não somos capazes de ver além do horizonte. Um grande buraco negro tomou conta de mim.

O fogo queima meu corpo com suas intensas labaredas. Sinto minha existência se extinguindo aos poucos, enquanto minha alma dilacerada se esvai do meu corpo em processo de dissolução. Ouço uma voz me dizendo: “Do pó vieste e ao pó retornarás”. Meu corpo é reduzido a cinzas. A chama do fogo não se apagou. Ainda posso sentir o calor forte de suas labaredas ardentes.

O fogo vai me reconstruindo aos poucos. Sinto tudo se restabelecer como que por encanto. Meu novo corpo parece ainda mais forte que o anterior. Minha alma habita esse novo corpo e me mostra que também ela foi afetada por essa metamorfose dolorosa. A nuvem negra se desfaz lentamente, mostrando-me uma luz que cresce de forma gradual. Percebo que ganhei asas, mas somente pessoas iluminadas conseguem visualizá-las.

A glória só é vista por quem acredita nela. Assim, depois de todo processo concluído, levanto-me do chão. Recolho tudo que sobrou e lanço ao vento. O vento leva a dor, a mágoa, e tudo mais que não é necessário no momento. A água purificadora lava meu corpo e me mostra minha verdadeira cor, fazendo com que as últimas cinzas desapareçam. Agora é uma nova era, um novo começo, uma nova vida, um novo caminho, um novo lugar pra chamar de meu. Pelo menos por enquanto...

sábado, 20 de novembro de 2010

Manifesto Contra a Violência

Há dez anos atrás eu sofri um sequestro relâmpago, os bandidos olhavam pra mim e me chamavam de princesa. E cada vez que faziam isso eu sentia meu sangue ferver e uma vontade, quase incontrolável, de bater ferozmente neles até que o sangue deles manchasse minha roupa negra. Estavam muito nervosos provavelmente era um dos primeiros crimes que cometiam. Os bandidos nos levaram para a Ilha do Fundão, onde geralmente se desovavam corpos. Quando vi o carro entrar na Ilha, acreditei que de lá não sairia viva. Dava como certo o meu estupro e morte. Eles ficaram rodando conosco por cerca de uma hora, e nos deixaram na Linha Amarela, indo em direção à Avenida Brasil.

Sugeri ao meu amigo que fossemos dar queixa na 22ª DP. Próximo ao Mc Donalds havia uma patrulha, nos aproximamos e eles disseram que não poderiam fazer nada. Demos queixa e sentimos toda a frieza dos policiais, quando dissemos que o carro não tinha seguro. Na época as coisas eram mais simples. Algum tempo depois os sequestros ficaram mais agressivos, e eles obrigavam as vitimas a sacar dinheiro em agencias bancárias 24h.

Posso dizer que dei sorte, pois não me levaram nada. Todavia no dia 16 deste mês, sofri um assalto no ônibus e um rapaz negro, magro e jovem, de camisa vermelha, arrancou violentamente meu celular das minhas mãos, quase levando junto minha orelha. Ele entrou no ônibus em que eu estava, observou, viu que eu estava com uma criança, que era mulher. Quando o motorista abriu a porta do ônibus em frente a um polígono da polícia, ele me roubou o celular e o sossego.

Um ano antes um desconhecido levou meu celular no ônibus no Alto da Boa Vista, mas esse eu não vi quem era. Algumas semanas antes do assalto, me levaram um outro aparelho, novamente um desconhecido se aproveitou que eu estava com criança, para sorrateiramente levar meu celular. E alguns dias atrás isso foi feito de forma violenta.

O motorista do ônibus ainda deu uma volta pra ver se encontrava o rapaz, mas nada. Ele passou por três patrulhas da polícia e ninguém o viu. Parei em um dos carros e alertei, fiquei surpresa quando os policiais pediram que entrasse no carro e saíram em busca do meliante. Esses policiais não fizeram como os anteriores, eles se propuseram a fazer o seu trabalho. Passaram um rádio pras outras patrulhas pedindo que observassem caso vissem algum rapaz com a descrição que eu lhes dera.

Nada que foi feito tirou de mim a dor de ter um bem que eu conquistara com tanto esforço ser tirado de forma violenta de minhas mãos. O problema maior é a certeza que os criminosos tem da impunidade. O rapaz que me assaltou provavelmente era menor. Se pego, ele vai cumprir medida sócio educativa e depois, provavelmente, vai retornar para o crime. Sei que fui abençoada por encontrar pessoas de bem, que se dispuseram a me ajudar da maneira como podiam.

Mas precisamos muito mais do que UPPs para solucionar o problema da violência. Precisamos que os jovens de comunidades pobres vejam uma perspectiva de futuro melhor do que trabalhar como boy, ou não ter trabalho. É mais do que necessário que se invista em educação, e principalmente na educação para o trabalho. Precisamos que os governantes deixem de roubar com obras superfaturadas e invistam em geração de emprego e renda.

Precisamos apresentar um futuro melhor e mais digno para que esses meninos não sejam atraídos pelo dinheiro fácil e pelo tráfico de drogas e armas. Precisamos, todos nós, de esperança de um futuro, não muito distante, onde não teremos medo de andar nas ruas. Onde não tenhamos medo de andar com os bens que conquistamos com nosso suor. Onde não tenhamos que andar com dois celulares, o nosso e do iminente ladrão.

Não podemos nos culpar pela desordem e o caos, não quero ser vitima, mas também não quero ser culpada por não ter tido cuidado suficiente para resguardar meus parcos bens. Não quero ficar noites em claro pensando no que poderia ter feito pra evitar que um qualquer da sociedade me privasse de algo que eu, com trabalho honesto, comprei. Não quero pensar nos sapos que engulo todos os dias, na falta que sinto dos meus filhos, no tempo perdido no trânsito em que poderia estar sendo mais útil, e que usei pra comprar aquele celular e que me foi tirado.

Não aceito mais a vergonha do nosso país. A vergonha da minha cidade. A vergonha de não me sentir segura pagando os altos impostos que pago, para que ladrões de colarinho branco possam viajar em jatos particulares, terem seguranças particulares, para pagarem caras escolas pros seus filhos, enquanto que eu luto diariamente para pagar uma escolinha não muito cara, para que meus filhos não sejam esmagados pela educação pública.

Não aceito que essa corja de assassinos e ladrões minta descaradamente que são honestos enquanto pagam esmolas para que a população menos instruída os mantenham no poder. Não podemos aceitar calados aos mandos e desmandos de uma minoria que mama das tetas da maioria trabalhadora.

Eu quero dar um basta a essa corrupção, um basta à falta de bom senso das pessoas que se deixam iludir com falsas promessas. A repressão é necessária, mas junto com ela tem que haver outras medidas que impeçam que sejamos alvo da fúria dos marginais. Que percamos nossa paz.

CHEGA, pra mim CHEGA.

A PAZ QUE EU NÃO QUERO SENTIR

Essa é a segunda parte do meu manifesto pessoal contra a violência.

São duas horas da manhã e apesar de ter tomado uma taça de vinho pra relaxar, um banho quente (e quem me conhece sabe que é bem quente mesmo), eu não consigo dormir. Sinceramente não foi a discussão de meus vizinhos gays que me tirou o sono, tampouco o frio que senti invadir meu corpo e alma. Apesar da tentativa frustrada de meditar dizendo pra mim mesma entre uma expiração e outra que “Deus está dentro de mim”, sequer eu mesma estava dentro de mim.

A imagem da fração de segundos em que fui vitima (e como me dói dizer, escrever ou pensar nessa palavra) da violência de nossa cidade. Para alguns pode parecer um pouco de exagero, mas desde que me entendo por gente jamais havia, sequer presenciado um assalto na Praça das Nações. O pior de tudo foi isso acontecer em frente a um posto policial, numa das ruas mais movimentadas, e com bastante movimento.

Desta vez não foi à dor de perder meu celular, mas... não adianta tentar racionalizar o que estou sentindo. Impotência não diz muito, é mais. Frustração talvez, mais também não fala tudo. É um misto de sentimentos que vão da raiva à culpa, da revolta a dor que dilacera meu peito e me faz sentir absurdamente fraca. Sempre fui tão cuidadosa, sempre consegui ver nos olhos de alguém sua intenção. E agora não dei ouvidos aos meus instintos que diziam que aquele rapaz de rosto suave e traços finos era, na verdade, um aprendiz de marginal. Sim, porque roubar um celular da mão de uma mãe não é coisa de um criminoso experiente, mas de um aprendiz.

Fico, como um ator que ensaia uma peça, repassando aquela fração de segundos, pensando que poderia ter sido mais forte, que poderia ter tentado derrubá-lo. Minha razão diz que não podia ter feito nada. Foi tudo muito rápido. Mas a mesma não me deixa dormir repassando cada passo desde a entrada daquele marginal no ônibus.

Quando o ônibus parou na Favela do Mandela eu o vi sair detrás de um posto. Achei a atitude suspeita, mas pensei que poderia estar sendo preconceituosa. Ele entrou pela porta de saída do ônibus, sentou próximo e fingiu que dormia. Cheguei a olhar pra ele e pensar que atitude era suspeita, mas estava tão cansada que simplesmente fechei os olhos e continuei ouvindo o programa de rádio. A viagem durou pouco, o ato de violência durou menos ainda, mas é como se eu tivesse sido marcada com brasa quente durante um longo período.

Acho que a palavra que melhor se encaixa com o que estou sentindo é ódio. Ódio de mim, ódio daquele verme desprezível, ódio das autoridades que permitiram que as coisas chegassem a esse ponto. Mas principalmente ódio de não ter feito nada mais do que uma queda de braço com meu algoz. Sim, eu reagi. Minha vontade era correr atrás dele, e socá-lo até ver sua blusa vermelha manchada com seu sangue. Bater até que ele se arrependesse de ter nascido. Essa sede por sangue me domina de uma forma descomunal.

Duas músicas não saem da minha cabeça: A paz que eu não quero seguir do Rappa e uma outra do Legião Urbana cujo nome não me recordo. Desta última, as partes que não me saem da cabeça são quando o autor diz “Vamos cantar juntos o hino nacional, a lagrima é verdadeira...vamos comemorar juntos com festa, velório e caixão. Está tudo morto e enterrado agora...”. A música do Rappa diz que “as grades do condominio são pra trazer proteção, mas também trazem a dúvida se é você que está nessa prisão. Me abraça e me dê um beijo, faça um filho comigo, mas não me deixe sentar na poltrona num dia de domingo. Procurando novas drogas de aluguel nesse vídeo coagido. É pela paz que eu não quero seguir admitido...”.

Eu adoraria que minha voz fosse tão forte a ponto de incomodar cada pessoa responsável pelo meu infortúnio, desde o governador até o coronel de merda que fica sentado sem fazer nada mamando nas tetas do Estado e contando sua propina. Eu queria que minha voz se unisse a tantas outras vozes que já passaram pelo que eu estou passando. Porque não existe uma única pessoa que não tenha vivido, mesmo que de maneira indireta, o que eu vivi. Quem não conhece alguém que foi assaltado levante a mão e reze pra continuar tendo essa sorte.

O pior de tudo é sermos apenas mais um número nas estatísticas da violência. É estar num local de pseudo segurança, cercados por policiais e simplesmente se sentir o menor e mais indefeso ser da Terra. Eu agradeço de todo o coração os dois jovens PMs que me deram socorro. Mas se esse delinqüente não tivesse certeza que sairia ileso, eu não estaria fazendo parte de mais uma estatística. Eu não estaria sem meu celular, sem acesso a Internet e sem meu precioso sono.