quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Uma Breve História de Desamor

Acho engraçado quando chegamos numa certa idade em que sempre começamos uma frase com “quando era mais nova”, mas quero ser piegas. Embora queira começar dessa forma, vou enlaçar minha história com uma descrição da adolescência.

Para os adolescentes tudo são oito ou oitenta, não existe meio termo. Nada é tão sofredor ou apaixonante que ter seus hormônios em ebulição e seu corpo mudado a cada dia. Nem sempre os adultos se lembram de quando eram crianças e adolescentes. Na época da faculdade, tive uma professora muito louca e muito inteligente (geralmente nas ciências humanas o pessoal é meio louco, os normais são meio estranhos e não nos marcam), ela pediu para que nós lembrássemos de um fato ocorrido na nossa infância e que nos marcara. Todo o curso foi baseado nas nossas impressões da infância.

Hoje peço que vocês se recordem da adolescência, esse momento atormentador e encantador onde deixamos de ser crianças e não somos adultos, onde a sociedade nos impõe uma série de regras e incontáveis limitações. Imaginem-se acordando de manhã e vendo que você está mudando. No começo parece ser legal, mas depois fica tudo estranho. Acho engraçada a falta de valorização da sexualidade no ensino institucional, as aulas ocorrem mais em função da fisiologia do que da subjetividade. Adolescentes são um misto explosivo de transformações fisiológicas e subjetivas, e nenhuma dessas duas pode ser negada. A discussão subjetiva é tão importante quanto o ensino dos modos de prevenção de DST’s e gestações precoces.

Na minha casa não tive um dialogo aberto com minha mãe. Esta trabalhava o tempo todo e raramente conversávamos. Minhas colegas estavam numa fase em que necessitavam escolher seus amores através de fotos de artistas e eu achava aquilo tudo muito chato. Assim, era comum ser vista na quadra de esportes da escola assistindo um jogo de futebol. Não era por conta dos meninos sem camisa, pois a maioria era feia, mas sim pelo isolamento que a observação deles me causava. Olhar a bola rolando e aquele monte de homens correndo atrás dela era engraçado. Os esbarrões, os palavrões, as faces tensas, tudo isso me reportava para um isolamento absurdo de mim mesma.

Uma dessas mães “não tenho nada melhor a fazer do que olhar a vida dos outros” começou a observar que eu passava mais tempo entre os meninos que as meninas e correu pra espalhar fofoca dizendo que eu ficava com todos os meninos da escola e que a filha dela só namoraria depois que fizesse faculdade. Pronto, lá vai minha mãe pra reunião da escola pra discutir com minhas professoras a questão. Quem interviu em meu favor foi a inspetora do colégio, ela disse para minha mãe que eu só gostava de assistir futebol e que não era pra ela se preocupar, eu estava longe de viver agarrada aos meninos. Disse que quase sempre ficava sozinha num canto olhando e que minha mãe não devia se preocupar, eu não era uma menina assanhada, como muitas outras.

Odiava a escola em que fiz o primeiro grau. Achava tudo sujo e desorganizado. Odiava ficar trancada, cercada por muros altos, com pessoas que não tinham nada em comum comigo. As meninas viviam nas suas ilusões, os meninos na sua adoração pela bola e garotas do tipo Mulher Fatal. Eu tinha doze anos, e meu desejo era algo que eu não entendia. Sinceramente eu só queria ficar só. Passava um longo tempo olhando a janela da sala onde via o vento balançar ligeiramente as folhas das árvores.

O livro de português era cheio de histórias de romance, e a professora pedia que escrevêssemos histórias parecidas. Lá foi meu outro tormento. Mais uma vez minha mãe foi chamada na escola para conversar comigo sobre o fato de estar muito envolvida emocionalmente com romance. Desta vez eu pedi que minha mãe olhasse meu livro e visse os exercícios que a professora passava.

Vocês devem ser capazes de entender minha revolta. Minha vida era música, não vou dizer que não tinha meus romances, mas minha vida era escola e casa, casa e igreja. Eu não era dada às paixões e freqüentemente mentia pras minhas amigas dizendo gostar de um carinha qualquer só pra não parecer ainda mais estranha do que me sentia.

Mesmo um pouco antes dessa época eu era chamada com freqüência à sala da direção por estar “destruindo os sonhos” de minhas colegas. Aos dez anos eu chamei as meninas de tolas por acreditarem que seus corações eram capazes de gerar sentimentos. Disse-lhes que os sentimentos provinham do cérebro, uma vez que o coração era apenas uma bomba necessária para a circulação de sangue no organismo. A professora de ciências quase enlouqueceu, ela e a diretora adjunta me disseram que eu não podia dizer isso apesar de ser verdade, que eu não podia negar às minhas colegas o direto a ilusão.

Foi nesse dia que tive certeza que dizer tudo que pensava não era a melhor forma de manter pessoas perto de mim. Aprendi que a mentira é uma boa aliada em certas ocasiões. Que as pessoas não mudam seu cerne, elas aprendem a esconder melhor o que a sociedade encara como defeito para parecerem pessoas normais.

Com quinze anos comecei a namorar em casa. Ele era três anos mais velho que eu, e um poço de insegurança. Nessa época comecei a cursar o ensino médio e era comum ele ligar pra escola pra saber da minha turma e depois me interrogar as horas em que cheguei em casa. Num dado momento nos separamos. Não vou dizer que foi doloroso. O pior pra mim foi o escândalo que ele armou em frente a minha casa ao saber que eu não havia sofrido nossa separação.

Depois tive outros tantos namoricos e aprendi a só apresentar pra minha mãe aqueles que acreditava que pudessem durar. O pior de tudo e que nenhum durava muito. Era comum eu me interessar um por cara e depois me desinteressar com a mesma velocidade que me interessei. Depois de muitas idas e vindas, comecei a me sentir mal por não me apaixonar. Acreditava até que tinha ocorrido com um carinha com quem fiquei quatro anos num namoro pingue e pongue que não revelava a ninguém. Toda vez que um relacionamento acabava eu me prostrava a chorar sozinha em algum lugar onde não pudessem me ver.

Esperava minha mãe dormir e me punha a chorar copiosamente por horas. Depois me entregava a Morfeu e quando amanhecia, de olhos inchados, percebia que a dor havia passado. Na Bíblia tem um salmo que diz “a tristeza pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã”. Muitas vezes eu sofria por acreditar que era incapaz de amar alguém.

Quando mais jovem isso caia como uma luva feita sob medida para minha mão. Até que um dia eu conheci um rapaz da minha idade, com rostinho de menino e olhos de curioso. Um ser tão iluminado que sua luz preencheu minha vida. Durou pouco, só três meses, mas quando nos separamos senti como se uma parte de mim tivesse morrido. Eu só pensava em morrer. Para o adolescente tudo tem uma dimensão infinita. Como falei adolescente são dramáticos. Todavia aquela dor serviu pra me mostrar que eu era capaz de amar.

Percebi que eu era normal, embora minha racionalidade me impedisse, por vezes, de ceder às paixões, eu era capaz de amar. Se antes eu chorava por não me apaixonar, pela primeira vez eu chorava por um amor perdido. Aquela dor pra mim foi libertadora. Não vou dizer que, como antes, minha tristeza durou apenas uma noite. Levei anos pra me recompor daquela perda. E até hoje ainda sinto algo, embora não saiba exatamente o quê. Esse resquício de sentimento não me impede de viver novos amores, e não me preocupo em encarcerar esse sentimento em alguma palavra. Gosto de deixar o sentimento fluir em mim como uma música, como um som que penetra em todo o corpo e chega até a alma.

Um amigo me disse que a música é causada pelo movimento de elétrons e nosso corpo também é composto por elétrons, então há uma interação física entre nosso corpo e a música. Aprendi que quando estamos envolvidos com alguém devemos nos entregar a essa pessoa como quem se entrega a uma música melodiosa e bonita. Devemos desfrutar ao máximo tudo que nos for entregue. Viver ao máximo todas as belezas da vida. E se tiver que chorar depois, que chore tudo de uma vez, que sua alma seja lavada pelas lágrimas. Somos feitos de água, ela tem uma interação sinérgica conosco, e depois de chorar, tomar um longo banho com cheiros de lavanda e camomila, deitar na cama e permitir que Morfeu leve com ele a nossa dor.

A esse mesmo amigo eu disse que a dor é tão necessária quanto a alegria. Ambas nos mostram quem somos e também quem poderemos ser. A dor nos lapida, nos molda, mas somos nós quem damos a direção dessa lapidação. Um amigo geólogo disse que cada pedra diz ao lapidador a forma que deseja ter, assim somos nós. Pedras brutas, moldadas na dor e na alegria, nos sonhos, nos encantos e nos desencantos. A dor não deve ser desculpa para nos tornarmos rancorosos ou duros demais. Ela deve nos propiciar a meditação necessária para transcendermos nossa existência e nos tornarmos melhores, mais fortes, mais sublimes.

Hoje tenho dois filhos, e muitas obrigações e responsabilidades, minhas decisões afetam muitas pessoas e não apenas a mim e outra. Tenho que pesar absurdamente cada passo, pois duas vidas dependem de mim e de que eu seja forte. Hoje as coisas são mais doidas. Tenho que pensar até a exaustão antes de tomar decisões. No entanto, apesar de só ter vivido pouco menos da metade da expectativa de vida da mulher brasileira, sinto que a vida me ensinou a lidar melhor com certas dúvidas comuns aos adolescentes.

Aprendi que nada é eterno. Nós não somos eternos e a vida é uma linha tênue e delicada. Se as velhas mouras decidirem, elas cortam o fio e tudo cessa. Como já falei em outro post, não me interesso muito pelo que há após a morte, uma vez que sobre isso não tenho controle algum. Interesso-me pela vida hoje, nem amanhã, nem ontem. Disse há pouco tempo pra um amigo que, para mim, o futuro a Deus pertence, mas o momento é só meu, e o passado, esse eu não posso mudar.

Não podemos nos deixar culpar por não correspondermos ao sentimento alheio. Embora acredite que a razão controla a emoção, mesmo que de forma indireta, muitas vezes somos incapazes de corresponder a todo sentimento que nos é lançado por outros. Não podemos nos culpar pela ilusão que outras pessoas projetam em nós. Devemos ser sinceros acima de tudo conosco, com quem somos. Caso contrário, aos poucos, vamos deixando de ser quem somos, para sermos quem nunca idealizamos ser.

Corações partidos são tão inevitáveis quanto corações apaixonados. A paixão é uma força destruidora e construtora, forte e voraz, impetuosa e inebriante, que faz com que movimentemos nossas vidas. O fim dela não é igual pra todos, e não deve ser, uma vez que somos todos particulares. O modo pelo qual cada um vai curar sua dor, também é muito diferente. Procuro não pensar muito nas coisas que não me pertencem. Pode parecer egoísmo, mas foi o jeito que arranjei pra não me culpar por aquilo que não me pertence, pelo que não sou capaz de controlar.

“Às vezes se eu me distraio

Se eu não me vigio um instante

Me transporto pra perto de você

Já vi que não posso ficar tão solta

Me vem logo aquele cheiro

Que passa de você pra mim

Num fluxo perfeito

Enquanto você conversa e me beija

Ao mesmo tempo eu vejo

As suas cores no seu olho

Tão de perto

Me balanço devagar

Como quando você me embala

O ritmo rola fácil

Parece que foi ensaiado

E eu acho que gosto mesmo de você

Bem do jeito que você é

Eu vou equalizar você

Numa freqüência que só

A gente sabe

Eu te transformei nessa canção

Pra poder te guardar em mim

Adoro essa sua cara de sono

E o timbre da sua voz

Que fica me dizendo

Coisas tão malucas

E que quase me mata de rir

Quando tenta me convencer

Que eu só fiquei aqui

Porque nós dois somos iguais

Até parece que você já tinha

O meu manual de instruções

Porque você decifrava

Os meus sonhos

Porque você sabe o que gosto

E porque quando você me abraça

O mundo gira devagar

E o tempo é só meu

E ninguém registra a cena

De repente vira um filme

Todo em câmera lenta

E eu acho que gosto mesmo de você

Bem do jeito que você é...”

(Pitty - Equalize)

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Blue's day

São duas da manhã e não consigo dormir, faz algumas semanas que o sono me foge como um unicórnio mítico dourado. Não consigo parar de escrever. Tenho muita coisa pra fazer, mas não consigo fazer nada além de olhar uma foto do vazio que há em mim e escrever. Resolvi publicar minha insanidade, quem sabe me expondo consigo domar meu eu inquieto e volto a dormir com os anjos lourinhos e pequenos.


Sonho acorda

Com o dia acabado

O sonho o errado

Sonho o escuro

Sonho um mundo

Livre do mundo

Sonho com tudo

Inundado pelo vazio

Sonho ou desvario

Acordo, recordo e corto

O mundo meu atiro

Vazio de um mundo recordo

Um mundo meu vazio

Desfaço, refaço, reviro

Torço, retorço, desvario

Repito, refaço, relato

Um todo totalmente vazio

Derramo, inflamo, encanto

Um sonho, pesadelo, pensamento

Oculto, inculto, recôndito

Meu anjo, meu demônio

Meu, somente meu

Meu Deus, seu Deus

Antes, durante e depois

Nas trevas, na semi luz

Embaixo da lua, do sol, das estrelas

Pecado, recado de um ser

Incompleto, desconstruido, desnudo

Não quero acordar

Não quero ver a luz do dia

Não quero acordar

Não quero sonhar

Não quero lembrar

Só quero apagar.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Desconstruindo

Quando pensei em escrever um blog, jurei pra mim mesma que não escreveria nada sobre minha vida particular. Não seria como aquelas pessoas que fazem da vida privada um show público, mas vi que é impossível escrever sem se revelar, mesmo que seja um pouco. Não há quem leia Foucault sem perceber a repressão sexual sofrida por sua homossexualidade como força motriz de sua teoria. Lembro-me que a primeira publicação que li dele revelou sua opção sexual.

Somos transcritos o tempo todo quando nos propomos a escrever. Temos uma marca na escrita. Tive uma professora da faculdade que era obcecada pelo estudo da escrita. Ela guardava todos os trabalhos para compará-los com as monografias na tentativa de pegar alguma fraude. Essa marca, característica peculiar como uma digital, não nos permite desconstruir quem somos.

Quero usar este espaço para homenagear um anjo que foi alçado aos céus há uma semana. Ela era jovem, para os dias atuais, tinha pouco mais de sessenta anos e foi uma mulher incrível. Dona Leia, foi uma ótima mãe e não importa a quantidade de filhos que tinha, sempre aceitava mais um intruso como eu, e os amava de forma igual. Era uma ótima esposa, sempre companheira e amiga.

Peço pra jamais esquecer seu sorriso encantador e o cheiro delicioso da comida que ela cozinhava. Quando a conheci, morava numa pequena casa onde a cozinha e o quarto eram divididos por uma cortina. Não me recordo de sentir tão bem e acolhida como naquele cômodo. Para mim é muito difícil acreditar que não a verei mais. Que nunca mais verei aquele sorriso e sua voz terna dizendo que preciso visitá-la.

Seus filhos sentem o consolo de saber que ela não está mais sofrendo e que se encontra nos braços do pai, mas despedidas são sempre difíceis. A existência de algo além daquilo que vemos é sempre muito difícil. A saudade é sempre uma dor crônica, tem vezes que está mais fraca, tem vezes que está mais forte. Mas sempre nos acompanha.

Perdi minha avó há dez anos e sinto a mesma dor do dia de sua morte. Eu não superei essa perda. Tenho dificuldades de lidar com perdas como essa. Mas fico feliz de saber que existem pessoas que lidam bem com a morte. Segundo o dito popular a única certeza da vida é a morte. Outro dito diz que tudo na vida é passageiro, menos o motorista e o cobrador. A dor como tudo na vida é passageira. Às vezes ela vem e volta, às vezes ela some pra nunca mais voltar...

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Eleições 2010

Sempre quis saber como se fazia o processo eleitoral em nosso país. Até o nosso século, as coisas eram feitas manualmente, hoje está quase tudo informatizado. Este ano pude participar de quase todo o processo eleitoral. E ontem, dia da eleição, pude perceber e ver que não chegamos à democracia que me ensinaram na escola. Tive a oportunidade de acompanhar alguns pólos eleitorais, e vi que nós ainda temos o voto de cabresto.

Vi eleitores sendo abordados de forma agressiva por pessoas ligadas a candidatos. Pessoas semi analfabetas que não tem a menor noção do que é melhor para si, quem dirá para o país. Os piores eleitores são os analfabetos políticos que votam pela manutenção do estado, por puro comodismo ou àqueles que votam nos candidatos ditados por outra pessoa.

O direito ao voto foi conquistado através de muitas batalhas, mas nossa sociedade ainda não foi capaz de ensinar a importância do voto. Não é incomum alguém ser eleito sem sequer saber a atribuição de seu cargo. Os eleitores vendem-se, não apenas, às promessas de melhorias locais, mas em troca de uma cesta básica ou um remédio. Não são capazes de ver que para a sociedade essa compra de voto é maléfica.

A população de baixa renda tem sido vítima de ações eleitoreiras de alguns candidatos inescrupulosos. A violência tem marcado o discurso de muitos, mas a prática está longe do ideal. Pouco antes das eleições, vimos um bairro de classe média ser feito refém de bandidos, dos quais muitos ainda não foram presos.

Essa violência fez com que as pessoas se sentissem mais próximas, a violência atingiu todos os patamares da sociedade. O medo fez refém toda uma população que se sentiu obrigada a abraçar alguém que propôs melhorias na segurança pública.

Enquanto bilhões são gastos em teleféricos e postos de atendimento 24 h, crianças, jovens e adultos se arriscam para tentar estudar em escolas com péssimas condições estruturais. Algumas com vergalhões aparentes. Professores com baixos salários, com poucas condições de trabalho e alunos agressivos e prepotentes.

Pode parecer um pouco pessimista, mas não acredito em mudança sem educação. A violência vai continuar a crescer se não deixarmos de achar que o problema é do outro. Enquanto continuarmos a aceitar a sujeira dos corruptos e não pararmos de aceitar a propina, o remedinho, a cesta básica, o paliativo instantâneo. Precisamos ver as soluções a longo prazo, e a mudança é um processo lento e gradual. Não imediato.

Só haverá o fim da violência com educação. Quando os pais deixarem de responsabilizar a escola por ensinar boas maneiras, preocupando-se apenas com a educação secular e voltada para o trabalho. Quando as pessoas aprenderem que não vivemos sozinhos e que nossa vontade não é soberana.

“Neste país corrupção,

Pontapé bundão

Puro saco de mal cheiro

Do Acre ao Rio de Janeiro.

Neste país de manda-chuvas

Cheios de mãos e luvas

Tem sempre alguém se dando bem

De São Paulo a Belém

Pego meu violão de guerra

Pra responder essa sujeira

E como começo de caminho

Quero a unimultiplicidade

Onde cada homem é sozinho

A casa da humanidade

Não tenho nada na cabeça

A não ser o céu

Não tenho nada por sapato

A não ser o passo

Neste país de pouca renda

Senhoras costurando

Pela injustiça vão rezando

Da Bahia ao Espírito Santo

Brasília tem suas estradas

Mas eu navego em outras águas

E como começo de caminho

Quero a unimultiplicidade

Onde cada homem é sozinho

A casa da humanidade”.

(Ana Carolina)

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

A Arte de Forjar Espadas

Uma das coisas que mais gosto depois de ler é escrever. Comecei a escrever muito cedo, aos quatro anos de idade. Naquela época minhas frases não eram nada mais do que uma pequena oração simples. Minhas leituras eram os poucos gibis da Turma da Mônica que minha mãe comprava e algumas HQs da Marvel e DC Comics dos meus irmãos mais velhos.

Com o amadurecimento, minhas leituras foram mudando e aos oito anos li um livro que respondeu muita das questões que, uma pequena ouvinte dos problemas alheios, tinha. Esse livro cujo teor, me recordo apenas de partes, foi o “Príncipe” de Maquiavel. Naquela época me apaixonei por história. Ainda leio a Turma da Mônica e também sua versão para adolescentes, são leituras relaxantes, que me fazem sair do estado comum para um mundo onde não tenho que lidar com estresse e obrigações.

Crescer é sempre um ato de dor. Segundo a teoria psicanalítica de Freud, sofremos várias repressões ao longo da vida, vários traumas. Tais repressões moldam nossa personalidade e nos diz, acima de tudo, do que somos feitos. Olhando um exemplar de rocha, um geólogo pode dizer que tipos de elementos o compõem e de que forma essa rocha foi formada e quando. Assim somos nós, rochas que na infância são brutas, e lapidadas pela educação e pela vida social tornam-se quem somos.

A educação é um ato de violência, uma vez que o ato de ensinar é um ato social e como tal é a tentativa de homogeneização dos seres. Aprendemos, quando crianças, que a verdade não deve ser dita sempre. Você poderá questionar essa minha afirmação, mas observe uma criança bem pequena e seu responsável, verá que inúmeras vezes esta será repreendida por dizer aquilo que pensa. Por exemplo, quem nunca levou uma bronca ao dizer para alguém que este era feio, ou chato, ou quando expressávamos nosso desagrado por alguma pessoa?!

Pois bem, todos falam o tempo todo sobre a verdade. Segundo Platão, a verdade é uma mentira que esquecemos que era mentira. Segundo o seriado “Lie to me”, a verdade é uma junção de fatos dispostos aleatoriamente e dependentes da interpretação de cada um. E não é incomum, pessoas que dizem preferir a verdade quando desejam seu oposto. A verdade é uma obsessão tão grande que para a filosofia existe verdade absoluta, enquanto que para os teóricos das letras, a verdade já pressupõem absolutismo.

Lembro-me que no primeiro período da faculdade, um professor nos confrontou com uma questão tão complexa quanto esta que lhes abordo. Ele perguntou-nos o que era a realidade. A verdade, assim como a realidade são palavras tão cheias de significado, que quando tentamos atribuir algum significado sempre nos sentimos inseguros. E alguns gostam de dizer que as palavras por si só são apenas letras disposta numa determinada ordem, e que apenas num contexto poderemos entender seu significado. Todavia a palavra não é apenas uma disposição de caracteres ou símbolos, mas algo muito mais precioso e complexo.

No primeiro capítulo da epistola de São João ele nos diz que “1.1 No principio era o verbo, e o verbo estava com Deus, e o verbo era Deus. 1.2 Ele estava no principio com Deus.” O apóstolo confirmava o que Moises havia escrito no Gênese: “1.1 No principio criou Deus os céus e a terra.”. Numa tradução mais atual é usada “palavra” no lugar de “verbo”, mas o que importa nisso tudo é o fato de que desde a antiguidade já se conhecia o poder das palavras.

Os povos celtas tinham bastante receio da palavra escrita e acreditavam, como muitos outros povos, no poder da palavra. Bom, se a palavra é tão poderosa, como seria muda? Um queijo, um beijo, um jeito, um dia, sozinha, marinho, jatinho, caminho, vazio, amigo, amor, amante, vinho...

Cássia Eller cantou que “palavras apenas, palavras pequenas, palavras, momentos. Palavras, palavras, palavras, palavras, palavras ao vento”. Enquanto para os povos celtas a palavra escrita parecia perigosa, ainda hoje, pelo menos no direto brasileiro, a palavra escrita tem forte valor. Um contrato “de boca” só tem valor se ambas as partes cumprirem o combinado, todavia não há nenhuma condição legal nisso.

Hoje temos uma grande necessidade de ter tudo escrito. Este blog, por exemplo, foi a maneira que encontrei pra perpetuarem minhas conversas entre amigos, meus pensamentos e minhas impressões da vida, do cotidiano e de tudo mais. Vivemos num mundo onde a palavra continua constituindo poder, os políticos, os advogados, promotores, os atores e muitos outros usam e abusam da palavra para sobreviverem, a palavra é seu ganha pão.

Todavia existem muitos lugares onde a voz das pessoas não é ouvida. Lugares onde impera a submissão e o autoritarismo. Onde verdade e liberdade são artigos de luxo de poucas pessoas. Onde a vida é contada através de velhas histórias, contos cheios de esperança, cheios de superstições. Usamos os contos, mitos e superstições para explicarmos aquilo que não somos capazes de explicar de outro modo.

Os mitos são contos adornados de magias e realezas, de inteligência e esperteza, de sedução e mistérios, nos envolvendo e nos enfeitiçando, de modo que possamos esquecer, mesmo que por um breve momento, das coisas ruins da vida.

Os budistas dizem que a vida é feita de sofrimento. Os contos nos elevam aos céus, como na famosa “História das Mil e Uma Noites”, somos como sultão que se deixa seduzir por seus encantos e, assim, prosseguimos com nossas vidas, esquecendo nossas dores e crendo num amanhã. Por um momento somos felizes.

A felicidade é outra palavra cujo significado atribuímos a muitas coisas e que é bem difícil de ser definida. Para um faminto, felicidade é ter comida. Para um político ganhar as eleições. E assim, vamos seguindo, para cada um há um motivo ou razão para a felicidade. De modo que sempre somos impulsionados na busca do prazer. Felicidade e prazer caminham juntos, são quase sinônimos, uma vez que uma esta intimamente ligada a outra.

Temos prazer ao comer, ao fazer sexo, ao viajar, entre muitas outras coisas. Mas quando a tênue linha entre a felicidade e a obsessão se rompe, o prazer nos leva ao sofrimento. Os alcoólatras sentem prazer em beber, mas o prazer cessa no instante em que o corpo saturado de etanol sofre os efeitos do abuso. Como disse no post anterior, nossas vidas parecem girar em torno da dualidade, dos opostos; desta forma, somos continuamente expostos a vontade de encontrar um ponto de equilíbrio. Para os orientais a saúde só existe quando todos os aspectos da nossa vida estão em um ponto de equilíbrio. Se algo vai mal, o equilíbrio cessa e com ela a saúde. É necessário restaurar todas os pontos para que a saúde se restabeleça.

No ocidente acreditamos que resolvendo apenas o desequilíbrio inicial podemos restabelecer a saúde, mas as vezes o estrago é tão grande que isso só é um paliativo. Quando temos dor de cabeça, raramente pensamos o motivo para tal dor, nos acostumamos a tomar um comprimido para que tal incomodo passe. Com o tempo a dor fica mais forte e buscamos drogas mais potentes para fazê-la cessar. As drogas vão minando nosso corpo e logo deixam de fazer o efeito esperado. Se olhássemos para o pensamento holístico, veríamos que a dor pode ser tratada de outros modos. As vezes a dor de cabeça é causada pela fome, mas nem sempre comer resolve de imediato a dor. Faz-se necessário que o próprio corpo reconheça a supressão daquela necessidade para “desligar” a dor.

Mas por que esperar se podemos resolver de forma mais rápida?

Buscamos fórmulas, receitas, mecanismos para fazer cessar a dor e podermos ter prazer. Como se Matriz fosse real, buscamos uma pílula que resolva nossos problemas. Mas a dor, algumas vezes, é um mal necessário. O caos nos ajuda a movimentar nossas vidas. O desequilíbrio é tão necessário como o equilíbrio. A Matriz necessitava ser constantemente destruída, e assim os seres humanos conseguiam evoluir.

A necessidade de se aquecer nos dias frios fez com que o homem descobrisse o fogo. A necessidade de escrever e desenvolver minha escrita levou-me a passar por vários estágios até aqui. Minha necessidade de criar ligações fez com que eu escrevesse de forma prolixa.

“Hoje o meu coração mudou
Já não sei por quem vim, quem sou
Mas sinto e sou capaz
E o resto tanto faz

Foi só eu descansar
Junto ao pé de uma arvore que me acolheu
E depois me ocorreu

Vi que a vida que vivia em mim
Agora vive aqui nesse lugar
Em volta das sombras
Essa ilha é a reunião das infinitas direções
Que o vento traz com as ondas

E é quando me vejo a garimpar
As pedras, a montanha, o seu olhar
Rest la maloya, Rest la maloya,
Rest la maloya, Rest la maloya,
Rest là-même
Essa menina, essa menina, essa menina
Essa menina vem me dizer

Apesar de saber
Que nem tudo que eu quis eu pude conhecer
Nem deu pra mais prazer
Se cheguei até aqui
Bem no topo do vulcão, não posso mais descer
Mas tem como escorrer

Porque a natureza do amor
Está contida na beleza e na surpresa das manhãs
Dias que parecem tão iguais
Mas de repente vem sinais de uma nova magia

Depois desse encontro singular
O mato, o rum, o vinho, o mel e o mar
Essa menina, essa menina, essa menina
Essa menina vem me dizer

Rest la maloya, Rest la maloya,
Rest la maloya, Rest la maloya,
Rest là-même

Essa mania, essa mania, essa mania
Essa mania de viver

Essa mania, essa mania, essa mania
Essa mania de viver

Rest la maloya, Rest la maloya,
Rest la maloya, Rest la maloya,
Rest là-même

(Mart'Nália)

sábado, 25 de setembro de 2010

No Escuro

Alguns dias atrás foi meu aniversário, confesso que o mês de setembro é sempre um mês um pouco depressivo pra mim, não apenas por ter nascido nesse mês, mas porque é quando paro pra analisar as minhas realizações, minhas lutas, e as batalhas que ainda terei que disputar. Este ano ganhei um presente que foi maior do que todos os presentes que poderia receber. Um presente cujo valor excede todas as cifras existentes no mundo, e como diz meu pequeno príncipe, é infinita. Mas isso vou contar em outro post onde falarei sobre o perdão, sobre o ser humano. Agora quero falar sobre o peso dos anos.

A minha curta experiência de vida me mostrou algumas pérolas que talvez eu compartilhe com vocês; gosto de dizer que quando temos uma decisão importante pra tomar e estamos confusos sobre a melhor opção, o melhor é não optar por nada. Quando concentramos nossa energia num único problema, muitas vezes deixamos passar detalhes importantes, e passamos a vida toda nos perguntando se a escolha que fizemos foi correta.

Na época da faculdade uma professora de psicologia do desenvolvimento explicou o que era “insight”, e fiquei pensando que, quem sabe, esse tal de "insight" não seria a resposta para os nossos problemas. Quando deixamos de lado uma decisão importante para cuidarmos de outros assuntos, é bem comum encontramos a resposta para a questão que nos afligia. A conclusão é que não fazer nada é a decisão mais importante num momento difícil. Longe de dizer pra nos prostrarmos diante das coisas, digo que se pudermos esperar, o tempo nos mostra o que realmente queremos fazer. E enquanto isso cuidamos de outros assuntos.

Essa semana topei com um estudo de uma indiana que provou cientificamente, o que antes eu deduzia empiricamente. De maneira que, ontem, deixando meus problemas de lado, resolvi reviver uma experiência que remontava meus tempos de adolescente. Peguei o metrô meio sem rumo, meio sem obrigação e fui para onde meu coração me mandou. Tudo bem que isso não corresponde exatamente ao que descrevi, mas ontem me propus a viver experiências novas e antigas, únicas e fantásticas.

Quando criança, os adultos sempre nos falavam que éramos muito pequenos pra muitas coisas que queríamos fazer. Lembro que desejava fazer 18 anos para realizar tudo que antes me era proibido. Só que ninguém nos conta que junto com a tão sonhada palavra liberdade vem um plus, não muito legal, chamado responsabilidade. Tem horas em que me canso de decidir tudo, de tomar iniciativa, de fazer sempre o que é certo e de viver sempre no meu mundinho. Ontem eu me despi de mim, e entrei fundo no vazio do que sou, respondendo a um eu renegado.

Quase não dormi, mas foi um dos dias mais felizes desse ano. Sair por aí sem preocupação e sem obrigação, conhecendo pessoas por onde passava, me sentindo viva e jovem, sensual e bela. Não foi preciso aprofundar relações, nem falar sobre temas fechados, simplesmente conversei com diversas pessoas, sobre assuntos diferentes e me dei conta da minha insignificância e de como muitas vezes sou prepotente e arrogante. Porque nem tudo que é ruim pra mim é ruim pra todos. Percebi isso conversando no metrô com uma menina que estava satisfeitíssima com o prefeito que eu não suporto. Nós estávamos certas nas nossas opiniões, e estávamos erradas. Cada uma olhava apenas pra sua própria necessidade.

No fim, sinto que fechei um ciclo e respondi a uma questão que me deixava angustiada. Mas principalmente, consegui resgatar o melhor de mim. Adoro pessoas e as odeio. Acho que o princípio universal da vida é a ambigüidade. Estudando um pouco de mitologia percebi que todas trabalham, de uma maneira ou de outra, a questão da ambigüidade. Veja o Yin e Yang, fêmea e macho, bem e mal. Isso pode ser visto em todas as culturas, desde as mais antigas até o presente momento. Quem não se pergunta se é bom ou ruim. Quando olhamos aquele doce ou salgado atraente e apetitoso, sempre nos perguntamos se nos fará bem, mas quando o saboreamos sentimos que nos faz bem, e não importa se aumentou nosso peso, colesterol ou pressão. Pra nós o prazer esta sempre associado a algo bom. Será?

Segundo Foucault, a sociedade para manter a “ordem” e a “disciplina” nos restringe o prazer. Assim, vemos na cultura judaico-cristã o sexo como sendo algo ruim, um mal necessário para manutenção da espécie. Não são poucas as mulheres que, mesmo com o desenvolvimento do movimento feminista e a liberação sexual do nosso século, jamais foi capaz de sentir prazer, de ter um orgasmo.

Em algumas culturas, o prazer só é permitido para os homens. Em muitos países da África o clitóris feminino é extirpado ainda na infância a sangue frio, levando muitas a morte prematura e outras à ignorância total do prazer sexual (pelo menos o clitoriano). Mas quantas de nós, nas sociedades dita liberais, não temos nosso clitóris extirpado? Nosso prazer negado?

No trabalho, somos vistas de modo diferente. Se um homem anda com um botão da blusa aberto, ele é visto como sendo descolado, se uma mulher faz o mesmo é considerada, no mínimo, como sendo muito ousada, atrevida ou indiscreta. Não estou tratando de uma questão puramente sexista, porque as mulheres, por vezes, são as primeiras a se criticar.

Vi um belo filme chamado Malena, um interessante filme que retrata o descobrimento do sexo por um menino e o preconceito de uma pequena vila com uma mulher jovem, bonita e solitária. Malena, casada com um militar, é deixada duas semanas após seu casamento para que seu marido lute pela Itália na Segunda Grande Guerra.

O incomodo causado pela beleza da jovem e sua solidão, faz surgir vários boatos sobre sua fidelidade ao marido distante. Assim ela ganha a antipatia das mulheres, invejosas de sua beleza e jovialidade, e o desejo ardente dos homens, intrigados e desejosos. Até então, os boatos não lhe causavam muitos problemas, mas quando seu marido é dado como morto, a cidade se alvoroça, e tais boatos chegam até o pai da jovem que, crendo na má conduta da filha, a abandona. Viúva e após a morte de seu pai num bombardeio a cidade, Malena se entrega aos boatos e se torna uma prostituta.

Não vou contar o final do filme, pois acredito que pela bela fotografia e delicadeza da história, ele deve ser visto e não simplesmente contado. A sutileza com que são mostradas as cenas e o desenrolar da história me faz pensar o quanto, ainda hoje, não nos deparamos com Malenas e mulheres invejosas, assim como homem recalcados.

Você me pergunta como do meu aniversário eu fui parar na questão da liberdade sexual e o preconceito?

Pois bem, quando adultos nos deparamos com várias teorias, teses e antíteses da vida. Neste momento penso que todo radicalismo excede a razão e a destrói; desejo, profundamente, que nos próximos anos o mundo seja mais racional e humano.

“Quando tá escuro e ninguém me vê

Quando tá escuro, eu enxergo melhor

Quando ta escuro, te vejo brilhar

É onde eu fico a vontade sem medo da claridade

Passo o dia inteiro esperando a noite chegar

Porque não há mais nada que eu queira fazer.

Quando tá escuro, tanto faz que cor tem

Quando tá escuro só valem as palavras

Quando tá escuro ninguém repara as minhas meias

É onde eu fico a vontade, sem medo da claridade

Passo o dia inteiro esperando a noite chegar

Porque não há mais nada que eu queira fazer...”

(Pitty – No escuro)

A tempo: Por que nos sentimos idiotas quando estamos absurdamente felizes?

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Tempo e Memória

“O tempo passa e engasta a gastura dos sapatos

Na pressa à gente não nota que a lua muda de formato

Pessoas passam por mim pra pegar o metrô

Confundo a vida ser um longa metragem

O diretor

Segue seu destino de cortar as cenas

E o velho vai ficando fraco esvaziando os frascos

E não vai mais ao cinema

Tudo passa e eu ainda...”

(Ana Carolina)

Não são poucas às vezes em que nos deparamos com situações ou pessoas que nos fazem refletir sobre o tempo passado, e talvez também o futuro. Quando penso sobre mim, não me vejo com a idade que estou. O tempo parece apenas uma forma de tentar contar o infinito. Sinto-me como se o tempo passado não fosse, exatamente, passado. Quem sabe o tempo passado seja apenas uma leve brisa no ar, de modo que só o percebemos quando paramos para prestar atenção.

Só percebo minha idade e, conseqüentemente, o tempo passado, quando vejo as marcas do tempo em meu corpo. Cada cicatriz tem sua história, seja boa ou ruim. Já pensei muito sobre essas histórias e sobre como eu seria se elas fossem diferentes. Há uma música da cantora baiana Pitty que diz: “Memórias não são só memórias, são fantasmas que me exortam aos ouvidos coisas que eu nem quero saber...”

O que sei é que não seria eu mesma se não fossem as histórias boas e ruins. Aprendi com ambas, embora de diferentes formas. Acredito que a principal lição que aprendi com as boas histórias foi que na vida não há mal eterno e nem bem. Com as más, aprendi que “viver cansa, mesmo vivendo na França, mesmo indo de avião...” (Cássia Eller). E se viver é preciso, que vivamos todos os dias da melhor forma possível.

O tempo só é cruel com quem passa a vida olhando para o relógio. Tive o prazer de conhecer uma senhora cuja vida começou aos 60 anos de idade. Conheci a “Dona” Eunice no primeiro ano do segundo grau. Ela casou-se muito jovem, teve filhos e dedicou sua vida a cuidar de sua família. Quando o marido morreu e os filhos já estavam “criados”, ela resolveu que era hora de realizar seus sonhos.

Sonhos guardados não são sonhos perdidos, são sonhos esperançosos de um despertar. Na idade em que muitos considerariam suas vidas terminadas, “Dona” Eunice começou o despertar de seus sonhos, e não só os despertar, mas os viver. Fez supletivo, resolveu cursar o segundo grau regular, entrou numa universidade, e como se isso tudo já não fosse o bastante, ainda aprendeu a tocar piano.

Dizia-se que pessoas idosas não eram capazes de aprender novas coisas ou de mudar suas vidas, mas “Dona” Eunice provou que isso não é verdade, que como seres humanos, homo sapiens, somos sim capazes de aprender durante toda a vida, talvez com um pouco mais de dificuldade, mas somos capazes.

Por toda a sua garra, coragem e força, essa mulher se tornou pra mim uma fonte de inspiração. Nós disputamos por dois anos o título de melhor aluna de geografia de um dos professores mais loucos e divertidos que conheci na vida. Nunca fomos muito amigas e por isso não sei dizer o que aconteceu com ela depois, todavia gosto de imaginar que ela conseguiu realizar todos os seus sonhos e ser feliz.

A felicidade não é uma constante, ela é feita de fragmentos de vida, de sonhos, de esperanças e de lutas. Lutas por que sem lutas não há vitórias, e sem vitórias não há razões para se lutar.

“Eu fui matando os meus heróis

Aos poucos como se já não tivesse

Nem uma lição pra aprender.

Eu sou uma contradição

E foge da minha mão

Fazer com que tudo

Que eu digo faça algum sentido

Eu quis me perder por aí

Fingindo muito bem

Que eu nunca precisei

De um lugar só meu

Memórias não são só memórias

São fantasmas que me exortam

Aos ouvidos coisas que eu nem quero saber...” (Pitty)