terça-feira, 9 de abril de 2013

A PODA DOS GALHOS MORTOS

Revisando meus escritos, encontrei uma postagem que não publiquei. Embora esteja defasada com o momento, achei interessante postar. Palavras só ganham vida se tiverem leitores. Espero que os agrade.

A poda dos galhos mortos


 Desde outubro a única coisa que tenho feito pelas minhas plantinhas é colocar água nelas. Durante muito tempo não tive vontade, paciência ou qualquer outro sentimento, para realmente cuidar delas. Outro dia, resolvi que tiraria a poeira que pairou sobre minha vida. A parte mais difícil de uma decisão é o começo. Perceber o que devemos mudar é, relativamente, fácil. Ouvi por diversas vezes nas minhas três décadas que para começar só começando. Mas a pergunta que acredito que todos se façam diante da execução de algo complexo é: por onde começar?

Geralmente sou bem objetiva, mas como qualquer ser humano, há momentos em que as coisas me parecem um pouco mais difícil do que eu imagino que seja. Ou talvez minha percepção esteja equivocada e minha aparente razão não seja capaz de criar um nexo causal pra iniciativa tomada. De qualquer maneira, o começo é sempre mais difícil. O primeiro passo é sempre o mais demorado e complicado. Antes de dar os primeiros passos, o bebê ensaia várias vezes. O que para nós se dá de forma rápida, para eles é um processo longo. O tempo passa para todos de maneira muito particular. O bebê avalia sua capacidade de andar, tenta levantar-se e manter-se de pé. Ele só caminha pela primeira vez quando se sente totalmente seguro, e nos brinda com uma surpresa maravilhosa.

Para os judeus e alguns outros povos, a entrada de uma loja ou casa deve estar sempre limpa, não apenas por ser o cartão de visitas do local, mas porque se estiver suja, ao adentrar a sujeira virá junto. Em alguns lugares não se entra de sapatos, que são deixados na porta. Pensando nisso, resolvi começar minha faxina por fora, pela minha casa. Mas dentre tantas coisas a se fazer o que faria primeiro?

Pensei ser um bom momento para cuidar daqueles que eu desejava trazerem cor pra minha vida. Em todos os lugares que eu já morei, este apartamento para o qual eu mudei é o único cuja pintura é toda branca. Já morei numa casa cor de rosa, mas branco nunca. Tenho uma pseudo varanda, toda branquinha. Meu prédio é um antigo com estilo clássico. Passei num mercado e comprei várias flores e plantinhas para enfeitar minha varanda e torná-la mais agradável. Para mim uma casa muito clean é desumana. Seres humanos são seres multifacetados, coloridos e heterogêneos, e isso não combina com um ambiente muito...branco.

Assim, comecei meu trabalho de reorganização pelas minhas plantinhas. Enquanto as podava, percebi que muitas vezes precisamos nos podar. Precisamos ver quais os galhos, flores ou folhas precisam ser retirados de nós para que mantenhamos nossa saúde. Quando insistimos em manter determinadas coisas que nos fazem mal, ficamos mais feios. Um amigo que esteve na minha casa me falou que minhas amigas verdes estavam morrendo secas. As partes mortas estavam tão evidentes que mal conseguíamos ver as pequenas ramagens nascendo por baixo das folhas e dos caules ressecados.

Na vida, temos muitos sentimentos que precisam ser podados pra não atrapalharem os sentimentos bons que precisam de espaço pra crescer. Esse movimento precisa ser constante. Uma amiga me disse que para ter um bom fim de semana sentia que precisava beber uma cerveja com o marido pra poder esquecer dos problemas do trabalho. Carregamos muitos fardos na vida. Ontem, enquanto levava meu filho pra escola um homem praguejava aos berros o fato de algumas pessoas tratarem os outros como burros de carga. Na vida social somos obrigados a engolir muitos sapos, represar sentimentos e ocultar nossos desejos em prol da coletividade. Mas no longo prazo isso não é bom.

Quem nunca sentiu os ombros pesados como se carregássemos o mundo nas costas como Atlas?

Ou quem nunca sentiu como se, durante todo o dia, carregasse grandes e pesados blocos de pedras, para depois vê-las retornar ao lugar inicial para que as carregássemos novamente como Sísifo?

Esses sentimentos acumulados são tão danosos quanto os vícios nas drogas lícitas e ilícitas. De tempos em tempos precisamos realizar nossa poda, eliminando aquilo que não está bom para ter mais espaço pra coisas boas nascerem em nós. Quando estamos muito ocupados pensando no que fazer para resolver um problema, não vemos muitas soluções. Quando nos distanciamos do problema, quando nos ocupamos de outras coisas, nosso cérebro é capaz de nos mostrar respostas muito criativas e eficientes. A poda funciona mais ou menos da mesma maneira.

Mas como faríamos essa poda? De quanto em quanto tempo devemos fazê-la?
Longe de sermos loucos ou medíocres, acreditando sermos mais do que realmente somos capazes de ser. Acredito que quando nos vemos tristes, inseguros, solitários ou simplesmente cheios de tudo, esse é o momento em que a poda já passou da hora de acontecer. Nessas horas a poda é mais do que necessária, é urgente.

O ideal é que nós nos despíssemos todos os dias de nossos personagens na vida e fossemos dormir completamente despido de nós mesmos e de todo o resto. Algumas pessoas olham pra trás e dizem de alguma maneira quando saem do trabalho que o que aconteceu lá permanece lá. Isso me lembra uma cena muito interessante do filme sobre Carlota Joaquina – Princesa do Brasil da diretora Carla Camurati, onde a princesa retira os sapatos, jogando a areia fora e dizendo que desta terra não queria sequer o pó. Deveríamos fazer isso todos os dias, como um ritual de purificação, semelhante àquele que os católicos fazem ao passar em frente a uma Igreja ou adentrá-la.

Não quero, contudo, dizer que tudo de ruim que nos acontece deva ser negligenciado e relegado ao esquecimento total. Apenas que devemos aprender a dar a importância devida a cada coisa e depois seguirmos em frente. Novos aprendizados são sempre válidos, quer seja pelas coisas boas que nos acontecem, quer seja pelas más. O que importa é não se deixar endurecer pelas tristezas e decepções, mas manter o espírito sempre jovem e cheio de amor.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

RITO DE PASSAGEM – ANO NOVO



Já faz algum tempo que o rito de passagem de um ano para o outro não me encanta mais. Ano velho, ano novo, parecem mais metáforas do que algo real. O que esperar do ano que ainda não começou? Será que a repetição dos meses e dias não serão os mesmos?
 A maioria das pessoas faz promessas que nunca vão cumprir. Ano após ano, as pessoas preferem esperar um milagre que torne a vida mais fácil, que faça com que seus sonhos se realizem, do que investir e lutar para obterem suas conquistas. Não estou dizendo que milagres não acontecem, mas somente esperar não adianta, precisamos rever nossos conceitos diariamente, rever nossas opiniões e trabalhar duro pra que nossos sonhos se realizem, para sermos melhores do que éramos.
Não posso dizer que o ano que está findando tenha sido ruim ou bom. Foi um ano de muitas lutas, muitas conquistas... Um ano montanha russa, do mesmo modo que os anos anteriores. Em 2012, casei, engravidei e recebi de Deus o presente de uma filha linda. Comecei a pós-graduação tão desejada. Tive que mudar várias vezes meus planos no trabalho por conta de uma série de fatos, muitas vezes inerente a minha vontade. Meus filhos conseguiram entrar em boas escolas públicas. O que mais eu poderia esperar?
O próximo ano trará consigo uma série de novos desafios, lutas e vitórias. Como numa roda gigante, haverá momentos bons e ruins, momentos de altos e baixos. Em 2013 pretendo realizar muitos novos sonhos: um curso de alfabetização de crianças, talvez iniciar meu pré-projeto de mestrado, estar mais próxima dos meus filhos... Enfim, palavras que serão pequenas se eu não transformá-las em ações.
Assim, termina o ano de 2012 e se inicia o ano de 2013, com todos os mesmos dias, meses e anos se repetindo numa sincronia infinita... Ou até que a humanidade resolva mudar sua forma de contar o tempo.
Pra terminar, desejo a todos os amigos e não amigos, uma boa virada de ano. Que no próximo ano possam desfrutar de novos desafios, nossas propostas de caminhos, novas realizações.

MODINHA
Cecília Meireles
Tuas palavras antigas
deixe-as todas, deixe-as,
junto com as minhas cantigas,
desenhadas nas areias.

Tantos sóis e tantas luas
brilharam sobre essas linhas,
das cantigas – que eram suas –
das palavras – que eram minhas!

O mar, de língua sonora,
sabe o presente e o passado.
Canta o que é meu, vai-se embora:
que o resto é pouco e apagado.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

SIMPLESMENTE SIMPLES


        Há momentos em que a tranquilidade parece ser a maior necessidade de nossas vidas. Mas como ser tranquilo num mundo onde a pressa pede pressa, onde as pessoas andam de forma rápida e sem olhar para o lado. Como ser tranquilo, num mundo onde as cores do verão não são apreciadas pela maioria das pessoas apressadas que mal olham para o céu. A vida para elas é tão corrida que não podem contemplar a beleza do dia ou mesmo a preciosidade de uma chuva no final de um dia de sol.
       Muitas vezes não é a questão da pressa, mas o cansaço de um dia de correria e luta, que não permite que olhemos as pequenas grandes coisas da vida. O mau humor no trânsito nos impede de ouvir uma criança dizendo com sua voz doce e alegre à avó que a ama. Ou quem sabe compreender que a tranquilidade diante do inevitável não é abster-se de lutar, mas permitir que as coisas tomem seu rumo natural. Devemos lutar até o fim pelo que acreditamos, mas quando essa luta no decorrer do tempo perde seu significado original e nos esquecemos de nosso propósito, ela deixa de ser nobre e passa a ser em vão.
        Acreditar é algo que deve preceder qualquer luta, mas isso não significa que não podemos mudar de opinião. Somos pessoas, seres imperfeitos buscando uma perfeição quase utópica. Devemos entender nossas limitações, sem deixar de buscar melhorar nossas fraquezas e falhas, mas sem transgredir nossos sentimentos. A vida é uma sucessão de cenas maravilhosas e há momentos em que devemos nos permitir olhar intimamente para elas, apreciá-las e saboreá-las como a um prato saboroso, que comemos devagarzinho para atrasar o fim, apreciando cada pedaço como se fosse o último.
        Seria bom, se ao menos uma vez nessa semana corrida que temos, todos pudéssemos parar um pouco e olhar algo novo que não tínhamos visto por causa da pressa ou do cansaço. Mesmo que esse novo seja apenas a janela que sempre existiu no hall do consultório médico e que você nunca reparou que existia.     

terça-feira, 18 de outubro de 2011

PESSOAS BRILHANTES

Ouvi certa vez a citação de Dick Corrigan que diz: Pessoas brilhantes discutem ideias. Pessoas medíocres discutem coisas. Pessoas pequenas discutem sobre outras pessoas". Fico impressionada com a quantidade de blogs e livros de pessoas pequenas, que só sabem discutir a vida de outras pessoas. Acham-se tão superiores, ou querem parecer tão superiores que precisam elogiar-se na frente dos outros para tentar provar que são superiores, para receberem elogios. Elas só sabem reclamar da vida, do quanto são injustiçadas, do quanto os outros são burros e incapazes de usar a massa cinzenta que vulgarmente chamamos de cérebro. Só que ao fazerem isso só nos mostram o quão pequenas são.

Longe de mim querer parecer uma pessoa brilhante, estou longe disso. Sou uma pessoa em construção, e quando olho ao meu redor vejo pessoas maravilhosas que me ajudam neste caminho que resolvi traçar. Este ano tive o prazer de conhecer várias pessoas que se ainda não são brilhantes, estão muito próximas de serem. Só pra citar algumas delas digo que trabalho hoje com duas professoras cuja criatividade me impressionam. De-lhes um desafio, elas se unem como duas brilhantes estrelas e transformam tudo em algo mágico. Há ainda uma outra, que com suas mãos é capaz de transformar o lixo em luxo, criando várias peças úteis e bonitas.

Há várias outras, confesso que atualmente são todas professoras. Criativas, cheias de brilho, que não se deixam abater pela não concretização de seus sonhos, mas que são capazes de transformar a adversidade em vitórias. São mulheres incríveis, talhadas com a pesada mão da vida, mas que não perdem a doçura no momento certo, são firmes nos momentos precisos e sabem viver como ninguém. são mães, mulheres, professoras, guerreiras, esposas, noivas, namoradas, amigas, filhas, netas, enfim, vivem todos os personagens que tem que ser nesse palco que é a vida, sem jamais cair do salto, sem olhar muito para trás. E eu as admiro muito, apesar do pouco tempo de convivência, e a cada dia desejo aprender mais com elas.

Longe de mim citar nomes, uma vez que essas pessoas não necessitam de exposição gratuita, mas sei que ao lerem minhas palavras, serão capazes de se identificar. Espero um dia, ter um pouco da criatividade de cada uma delas, transformando o lixo em luxo, tendo criatividade para vencer os desafios que me impuserem. Vivenciando cada segundo de cada vez, sem pressa, sem medo, simplesmente vivendo o que a vida tem a me oferecer, sempre buscando melhorar. Aprendendo a aprender sempre.

Ontem fui pequena, hoje sou mediana, amanhã quero ser grande. Ser um mosaico de todas as vivências que tive e que ainda terei. Quero ajudar a moldar vidas, moldando a minha própria. Quando eu for grande, quero ter todos os nomes de grandes mulheres escritos em mim, para que possa mostrar ao mundo que não precisa ser famoso pra ajudar ninguém, os que mais ajudam a humanidade sequer serão lembrados pelas pessoas pequenas, essas pessoas invejosas e recalcadas, mas serão vistas em cada semente que plantaram e serão lembradas pelos corações que encantaram.

A todos que buscam a iluminação interior e o crescimento, desejo que conheçam pessoas brilhantes e iluminadas como eu conheci. Pessoas que ajudem vocês nessa dura caminhada. E as pessoas brilhantes, à estas eu não digo nada, a não ser obrigada por existirem.


Ela é Bamba

"Então vamos lá!:
Ana, Rita, Joana,
Iracema, Carolina"

Ela é bamba!
Ela é bamba!
Ela é bamba!
Ela é bamba!
Ela é bamba
Ela é bamba!...(2x)

Ela é bamba!
Essa preta do pontal
Cinco filhos pequenos pra criar
Passa o dia no trampo pau a pau
E ainda arranja um tempinho pra sambar

Quando cai na avenida
Ela é demais
Todo mundo de olho
Ela nem aí
Fantasia bonita
Ela mesmo faz
Manda todas
Não erra a mira...

Mãe, passista, atleta
Manicure, diplomata
Dona da boutique
Enfermeira, acrobata...

(Bailábailá)

Bamba!
Ela é bamba!
Ela é bamba!
Ela é bambá!

(Bailábailá)

Bamba!

(Bailábailá)...hei hei heei!


Ela é bamba
Essa índia da central
Vai no ombro
Um cestinho com neném
Oito quilos de roupa no varal
Ainda vende cocada nesse trem

Toda sexta
Ela fica mais feliz
Vai dançar numa boate do Jaú
Faz um jeito
E já pensa que é atriz
Cada dia inventa um nome

Dora, Isaura, Emília
Terezinha e Marina
Ana, Rita, Joana
Iracema e Carolina...

Ela é bamba!
Ela é bamba!
Ela é bamba!
Ela é bamba!
Ela é bamba!
Ela é bamba!...(2x)

Dora, Isaura, Emília
Terezinha e Marina
Ana, Rita, Joana
Iracema e Carolina
Laura, Lígia, Luma
Lucineide, Luciana
Quer seu nome escrito
Numa letra bem bacana...

Ela é bala
A mestiça é todo gás
Cada braço é uma viga do país
Abre o olho com ela meu rapaz
Ela é quase tudo que se diz...

Quando compra uma briga
Ela é demais
Vai no groove
E não deixa desandar
Ela é pop, ela é rap
Ela é blues e jazz
E no samba é primeira linha...

"Vamo lá!:
Laura, Ligia, Luma
Lucineide, Luciana
Quer seu nome escrito
Numa letra bem bacana...

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

HÁ MUITO TEMPO ATRÁS

Em julho, o Quatro Estações completou seu primeiro aniversário. no entanto não tive como postar nada. Só pra variar minha vida deu outro giro de 180º, e não tive como escrever. Abandonei meu trabalho para dedicar-me ao sacerdócio da educação. Como em toda mudança, convivi com os prós e os contras, e a cada dia era questionada sobre minha escolha. O volume de trabalho aumentou muito e deixei de ter os finais de semana apenas para o lazer e descanso.
Como falei, tudo na vida tem seus prós e contras. A mudança me trouxe grande felicidade, apesar da dura rotina que tenho agora; além do mais, surgiram outras possibilidades na minha vida. Mas creio que meus leitores não se interessam por meus passos, mas por meus olhares. Então vamos lá...
Numa das minhas viagens para a escola em que trabalho a tarde, dentro do ônibus, parada num sinal de transito, percebi que as pessoas transmitem várias histórias com seu andar. Sou míope e sempre reparo nos detalhes que desprezamos normalmente, porque sem meus óculos preciso de uma referência para me guiar. Na época da faculdade uma das disciplinas era Psicologia Social, com ela aprendi que todos temos uma história pra contar, e que pode ser contada além das palavras ditas. Reparei que os centros das grandes cidades contam histórias para além de sua arquitetura. Há aqueles que andam apressados porque estão atrasados para um compromisso, aqueles que andam apressados por hábito, aqueles que andam devagar observando cada detalhe com atenção, aqueles que andam desconfiados, sempre tensos e muitos outros mais. Reconhecemos um gringo por suas roupas ou por sua estranha palidez, um tanto quanto incomum numa cidade tropical como o Rio de Janeiro. Não que não tenhamos nossos albinos, mas eles tem um jeito peculiar, um jeito... não carioca de ser. Algumas pessoas transparecem de forma mais intensa sua história, enquanto que outras criam um casco tão duro que é mais complicado lê-las.
De qualquer forma, quando andarem pelo centro de alguma grande cidade, façam o exercício de olhar um instante para ler as histórias que cada um é capaz de contar através de seu andar, de seu falar, de seus gestos, entre outras coisas. Imagine quantas vezes essa pessoa pode ter passado ou ainda passará por você sem quer vocês sequer se conheçam. Tente transpor o tempo, o lugar e as convenções, tente imaginar como seria a sua vida se você fosse essa pessoa. Neste momento você será capaz de dizer muito mais sobre a cidade do que apenas lendo os guias turísticos. As cidades não são compostas somente de lugares de trabalho, lugares de lazer, pontos turísticos... as cidades são feitas, principalmente, de pessoas. Pessoas como eu e você. Pessoas comuns, pessoas que tornam as coisas melhores para todos ou apenas para alguns.


Seu Olhar

Seu Jorge

Temos rotas a seguir
Podemos ir daqui pro mundo
Mas quero ficar porque
Quero mergulhar mais fundo

Só de me encontrar no seu olhar
Já muda tudo
Posso respirar você
E posso te enxergar no escuro

Tem muito tempo na estrada
Muito tem
E como quem não quer nada
Você vem
Depois da onda pesada
A onda zen
É namorar na almofada
E dormir bem

Foi o seu olhar
O que me encantou
Quero um pouco mais
Desse seu amor...

quarta-feira, 30 de março de 2011

UM AMOR, UM ADEUS, NOSSO ADEUS!

No dia seguinte à minha última postagem, recebi a triste notícia do falecimento de um bom amigo. Ele havia sofrido um grave acidente de carro, 40 dias antes. Seu estado inspirava muitos cuidados, e nem sempre a palavra estável significa algo bom. Por mais que minha razão gritasse que as chances de vida dele eram ínfimas, a sua morte me trouxe profunda tristeza. Acreditava que ele viveria por um pouco mais de tempo, mas caso isso ocorresse, seria ainda mais doloroso para aqueles que o amavam.

Tão logo recebera tal notícia, recordei de uma conversa que tive, anos antes, com duas amigas acerca da morte. Uma delas disse que se recebesse a notícia de que estava em estágio terminal, preferiria qualquer procedimento que a levasse rapidamente a morte, do que um tratamento que prolongasse sua vida. Esse assunto surgiu da experiência vivida por uma colega de trabalho, que lutou bravamente durante cerca de oito anos contra o câncer.

Este começara com um tumor no seio e alastrara-se por vários outros órgãos. Tendo em vista seu agressivo câncer e devido à ineficácia dos tratamentos feitos para sua supressão, fora-lhe dado seis meses de vida. No entanto sua vontade de viver era tão grande que os meses transformara-se em anos. Nem mesmos as agruras da vida fizeram com que essa mulher desistisse de viver. Nem tampouco, deixava de sorrir e contar suas histórias engraçadas.

Convivi com essa brava mulher durante quatro anos, dos quais aprendi que não importa o que aconteça, a força de viver, à vontade de viver, não pode nunca estar pautada nos outros, mas tem que existir dentro de nós. Mas, mesmo assim, são aqueles que nos cercam, que nos amam, que fazem com que a chama da vida nunca se apague em nós.

Não pude estar ao seu lado nos últimos momentos de sua estadia neste mundo, e tão pouco pude comparecer ao seu velório e enterro. Eu, simplesmente fui incapaz de ver seu corpo sem vida. Preferi lembrar dela com seu largo sorriso, seu sotaque nordestino, seu amor pela vida e suas histórias engraçadas. Eu sei que ela morreu sabendo o quanto foi amada, o quanto foi admirada por sua força e coragem.

Nenhuma criança deveria ter consciência da brevidade da vida, mas infelizmente tragédias não escolhem idade, raça, sexo ou qualquer outro diferencial. Foi numa tarde dessas bem comuns, que recebi a triste notícia da morte de um colega. Eu contava oito anos, ele uns nove ou dez. Éramos como cão e gato, e alguns dias antes de sua morte havíamos brigado feio. Ele me tratava mal, e puxava meus cabelos. Éramos muito inocentes, bem diferentes de algumas das crianças de hoje. Disse-lhe que nunca mais falaria com ele se não me pedisse desculpas. Para crianças o nunca é tão logo quanto um sorriso ou piscar de olhos. Mas para mim, naquele momento, o nunca seria realmente nunca.

O choro não veio fácil. A raiva que tomou conta de mim foi irracional. Lembro-me como se fosse hoje, de reclamar dele ter partido sem que tivéssemos feito as pazes. Ele era meu companheiro de madrugada, enquanto nossas mães conversavam na rua até o dia amanhecer. Víamos desenho no SBT. A partir de meia noite dava Tom e Jerry, e também Pica-pau. E agora? O que eu faria sem ele? Com quem eu diria que me casaria quando crescesse? Com quem eu brigaria, mesmo sabendo que não podíamos ficar mal um com outro?

A morte não era novidade pra mim, dois anos antes, minha irmã mais velha morrera. Mas desta vez era diferente. Minha irmã foi morrendo aos poucos, durante quatro anos. Pouco antes de falecer, eu mal a via. Minha mãe nunca me disse que ela morrera. Simplesmente me deixou esquecer. Mas agora, tudo era diferente. Allan e eu brigáramos no final de semana, e agora, como num passe de mágica, ele se fora.

No ano seguinte foi a vez do meu avô. Meu adorado avô. Estava me preparando pra ir pra escola, quando alguém bateu na porta e minha mãe começou a gritar histericamente: Ele se foi, ele se foi. Minha tia e minha avó estavam levantando-se, e puseram-se todos a chorar a minha volta repetindo o que minha mãe dissera. Perguntava aflita quem havia partido, e ninguém respondia. Fiquei tão aflita que comecei a chorar. Minha mãe, depois de um tempo, virou-se pra mim e disse que eu não iria a escola, meu avô estava morto.

Não acredito que minha tragédia pessoal tenha sido maior do que a daquelas pessoas que em janeiro deste ano perderam tudo o que tinham, e muitos toda a sua família no desastre da região serrana do Rio de Janeiro. Ou tampouco, a que ocorreu a alguns dias no Japão, onde muitos podem sofrer durante décadas os efeitos da radiação que escapou da Usina Nuclear de Fukushima.

De qualquer maneira, ao longo dos anos seguintes, fui perdendo várias pessoas da família e, também, conhecidos e amigos. A experiência com funerais e velórios, assim como o conhecimento adquirido ao longo dos anos, deveria ter me fortalecido, tornado mais forte. Mas não é assim que me sinto. Tive dificuldades pra escrever sobre tudo que aconteceu desde seu acidente até sua inevitável morte. Ensaiei o que escreveria, repassei diversas vezes mentalmente meu discurso, e nada. Parei até de olhar meu notebook, como se ele fosse me cobrar por não digitar nenhuma palavra sobre os acontecimentos.

Precisei de tempo para entender o que estava sentindo. Havia também meus próprios dramas pra entender. E a cada dia que passava ficava mais difícil sentar para escrever algo. Sentia como se o fato de não escrever fosse a prova de que tudo não passara de um sonho, um pesadelo. Senti medo. Logo eu, aquela que sempre tem algo pra dizer, uma palavra de consolo, de estimulo, de apoio. Naquele momento eu precisava de ajuda, mas não era capaz de exteriorizar isso. Não era capaz de sequer entender o porquê de tanta dor.

Somente hoje consegui compreender melhor o que sentia, o que sinto. Não era a dor pelo amigo, mas pelas coisas de deixariam de ocorrer com aqueles que precisavam dele e que eu amava. Eu não estava triste, necessariamente, pela sua morte, mas pela dor que as pessoas ao meu redor sentiam. Passamos toda a vida tentando nos diferenciar uns dos outros. Na escola buscamos ser o melhor ou o pior. Todos querem ser diferentes ou importantes. Mas na hora da dor, na hora da tragédia, somos todos iguais. Somos todos humanos.

Enquanto escrevo, pessoas se reúnem pra consolar os familiares de um homem, que até bem pouco tempo era apenas mais um político. Mais um ex vice presidente. Se não fosse sua história de luta contra o câncer, talvez eu sequer me importaria com sua morte. Mas foi a minha convivência anterior com uma paciente na mesma situação que ele, que me proporcionou conhecer a grandiosidade de José de Alencar. Sua coragem diante da dor e do sofrimento que essa doença tão cruel, talvez tenha sido mais marcante pra mim e pra outras pessoas, do que sua atuação política. E foi a morte dele, desse homem que eu só conheci através da imprensa, que pude entender melhor o que me impediu de chorar, de pedir ajuda – o fato de que na dor, não importa nada, não importa quem somos, nossas diferenças, o que presenciamos é a nossa igualdade.

sábado, 29 de janeiro de 2011

RETORNO AO MUNDO MEU

Talvez vocês tenham estranhado minha longa ausência. Um pequeno contratempo impediu-me de escrever, meu punho direito reclamou, talvez de minha constante pressão sobre ele nos últimos meses. Ou quem sabe meu corpo já fragilizado pelo estresse do cotidiano tenha me dado um alerta pra parar um pouco. E lembrando um pouco do compositor e cantor Lenine, quando o corpo pede um pouco mais de calma, o mais sensato a se fazer é atendê-lo.

Eu estudo todos os sábados, e confesso que há dias em que eu gostaria de parar tudo e me prostrar diante do ócio. Todavia minha particular inquietude não me permite a prosclastinação de meus desejos e necessidades. E quando ambas caminham juntas, fica ainda mais difícil sucumbir a preguiça. É incrivel como sinto uma alegria absurda em estar num sábado de sol em uma sala repleta de pessoas com distintos interesses, reunidas no intuito de ter uma carreira pública.

Hoje eu levei meu primogênito pra aula. Fiquei preocupada por ele não levar nada pra se ocupar durante as sete horas de aulas massantes. Minha ingenuidade não me fez ver que seu brinquedo preferido era eu. Depois de folhear por horas uma de minhas revistas e material de estudo, ele pôs-se a brincar com meus cabelos e outras partes do meu corpo.
As aulas foram maravilhosas, sempre me sinto um pouco mais animada depois de ter uma boa aula no curso. Acho uma pena que a endorfina liberada nessas ocasiões não se perdure pelo resto da semana, de maneira a me fazer sentir vontade de estudar contabilidade geral e pública.

Como estamos no horário de verão, ainda tive a oportunidade de presenciar o belo entardecer, deliciando-me com as belas praias da Zona Sul do Rio de Janeiro. O céu multicolorido me fez pensar em como tendemos a nos ater as coisas ruins de nosso dia, menosprezando momentos, quase mágicos, que a natureza nos proporciona. Não há um amanhecer igual ao outro, assim como o entardecer.

Gosto particularmente do entardecer, embora minha miopia cause certa dor nos meus olhos com a meia luz crepuscular. Como escreveu brilhantemente Pitty, quando está escuro eu me sinto melhor. Não sei se pela certeza de que em breve estarei em casa, reclusa no meu sacrosanto lar, ou se por ter sobrevivido a mais um dia. Só sei que sinto um alivio absurdo quando o sol se põem. Eu também gosto do amanhecer. Em tempos de faculdade, era comum eu apreciar o amanhecer na Praia Vermelha, após longas horas de bate papo com meus amigos.

Mas não há momento melhor para mim que o crepusculo. É como se a ausência de luz natural fosse como um manto aconchegante nos dias de inverno. Como se a escuridão me abraçasse de modo terno e doce. Como se a vida se resumisse a ternura da noite. E nas noites de lua cheia, sinto como se aquele fosco reflexo do sol fosse uma maravilhosa forma de reenerginar minha alma cálida de novos sentidos.

Não é a toa que a lua foi considerada como simbolo dos amantes. A escuridão ao redor dela, passa um ar mítico, místico e misterioso que atrai a atenção do mais cético dos seres humanos. Várias músicas, poemas, histórias e contos são inspirados nessa princesa do céu noturno. Ela encanta a todos mesmo quando não está visivel. Influencia as mares e os partos, nos ajuda a marcar os dias quando não estamos dispostos a olhar o calendário.

O céu desperto aberto a cor
Despacha o cansaço e a vida segue
No alto do morro o sol entregue
Vai se despedindo da cidade
A lua desponta do outro lado
Vai crescendo no horizonte arcado
As luzes artificiais vão colorindo a cidade
E a escuridão prevalece no mar
Que belo encanto a noite traz
E a prenuncia do descanso satisfaz
A alma do nobre trabalhador
E a alegria do badalador nasce
Com a esperança de muitas alegrias.